DE TERNURA E RECONHECIMENTO ANTIGOS – José Delfino

DE TERNURA E RECONHECIMENTO ANTIGOS – Não sei se já lhe aconteceu. Aquele instante, meio deitado, meio acordado, meio dormindo, a cabeça vazia se entregando ao sono e aos sonhos, que é nessas horas que eles acontecem. Quando o gatilho do pensamento, sem ter nem pra que, dispara um clarão súbito. Feito um caleidoscópio […]
DE PAPO TRÔPEGO – José Delfino

DE PAPO TRÔPEGO – A vida nos dota de certas capacidades que a gente pensa que desconhece. Fantasiar, por exemplo, é a racionalização quase perfeita; uma bela válvula de escape, uma das maneiras de se viver menos burocraticamente. Lugares pra onde ir a gente sempre encontra; bons amigos, também, pois o mundo não é só […]
NO MUNDO DA LITERATURA POLICIAL – José Delfino

NO MUNDO DA LITERATURA POLICIAL – Logo cedo na vida abandonei a literatura em quadrinhos (papai só deixava eu ler “O Sesinho”, presente mensal e gratuito do SESI, lembram dele?). Mas eu me amarrava mesmo era no “Gibi mensal”. Daí, então, começou a enxurrada de revistas: “Dom Chicote”, “O Zorro”,“ O fantasma”, “Tom Mix”, “Gene […]
DE CURTO-CIRCUITOS – José Delfino

DE CURTO-CIRCUITOS – Pra que correr? A existência é curta. Logo se apoderarão de nós as espondiloses, as espondilites, as espondilolises, as espondilolisteses da vida. Não entenderam? Faz mal, não. É que médico diz certas coisas que o povo não entende, mesmo. Um dia vocês vão sentir na pele, aliás nas costas e nos joelhos, […]
PELAS RUAS DE NATAL – José Delfino

PELAS RUAS DE NATAL – Naquela noite, com todos os mosquitos do mundo soltos lá para as bandas da Ribeira, Pedro Paulo, deitado na calçada da rua Frei Miguelinho, cochilava e acordava o tempo todo. O pesadelo se repetia quando mal fechava os olhos. Um anjo exterminador alado pairava no teto da casa e falava […]
SOLILÓQUIO – José Delfino

SOLILÓQUIO – Claro, a gente só descobre as coisas com o tempo. Na maioria das vezes, tarde demais. E sabe as conclusões que cheguei a essa altura do campeonato? Que não gosto de praia ou campo. Que sou um urbanita convicto. Que não me pertenço. Que sempre me persegue uma frase de Fellini numa […]
DE BRANCO – José Delfino

DE BRANCO – É fácil pensar. Só pensar. Entretanto, por no papel o pensamento da forma que você vê, nem tanto. Pois é difícil superar o sentimento escondido nele que, às vezes, você até não gostaria de ser revelado de forma tão explícita. Daí a necessidade de escamotear. Daí o uso da linguagem figurada. Da […]
DE POESIA – José Delfino

DE POESIA – 1 – HUM Quando as rimas se abrem Os lábios se entendem Onde o sal e o açúcar se fundem E um pouco ao salobro se sabem Escoltando intenção e escolha Ao teu travo de mate e se atrevem Num amargo sabor que lembra folha 2 – DOIS É que eu sempre gosto […]
DE APARIÇÕES – José Delfino

DE APARIÇÕES – Dizem que quando se avista algum ser de outro mundo não se discerne bem o que se está vendo, pelo fato de não se saber nem mesmo se eles realmente existem. De repente, entraria em livre curso uma parte do nosso cérebro onde a ciência ainda não detém conhecimento ou controle. Entretanto, […]
DE BARRA PESADA E ERRO GENÉTICO – José Delfino

DE BARRA PESADA E ERRO GENÉTICO – Entrei no centro cirúrgico e por força do meu ofício sempre atuar no ataque, naquela manhã de terça-feira me vi em posição de defesa e torando um aço. Despi-me, calcei os propés, pus o gorro cirúrgico (e a máscara, desnecessária, por puro reflexo), tranquei a inseparável bruaca no […]
DE POEMAS HERMÉTICOS – José Delfino

De poemas herméticos (que uns acham que são e outros não) Vênus no espelho (Vendo Velázquez) Deitada no quarto em penumbra Entre lençóis de linho encoberta Enroscada desnudado em ter-te Inalcançável como uma asa Refletida faz-te e semeada Em chão de pedras batidas Pontos de luz fogaréu ao longe No quadro antigo em claro-escuro O riacho em […]
DE PESADELO ETERNO – José Delfino

DE PESADELO ETERNO – Fazia tempo que eu não ia lá. A última vez foi em 1979 quando eles invadiram o Afeganistão e a população não tinha quase nada para comer, consumir ou se informar, a não ser as noticias filtradas dos jornais estatais ou nos livros doutrinários de distribuição grátis empilhados em incontáveis prateleiras […]
DE MÉDICO E DE POETAS COLECIONADORES DE FUSCAS – José Delfino

DE MÉDICO E DE POETAS COLECIONADORES DE FUSCAS – “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo. Perdeste o senso!” Não é tão fácil, meu caro, controlar o pensamento; suas interrupções, suas hemorragias agudas aos borbotões; ou arguir o que estaria por vir quando ele aparece sem censura ou aparas; ele simplesmente chega e se vai, às vezes […]
UM PEQUENO CONTO GÓTICO – José Delfino

UM PEQUENO CONTO GÓTICO – Por lá as convenções do tempo são tão repetitivas que quase passam despercebidas. As quatro estações do ano estão sempre circunscritas a períodos de seca ou cheia acompanhadas de um calor inclemente. O sol nasce de madrugada. Sempre escurece à tardinha. Folhas secas , emburradas, caídas nos chão dos parques […]
DE POEMA E ABSTRAÇÃO – José Delfino

DE POEMA E ABSTRAÇÃO – I Por si só não pesa Feito lágrima no olho Como gota de vela Arde em chama de início Como sólido desce O líquido vence E os lábios criam asas Quando em tom menor Raia na úvula rouca Insones dós arredios de dor E nela voraz e insólita A voz de um inquieto […]
DE APRENDIZADO E POLIMENTO – José Delfino

DE APRENDIZADO E POLIMENTO – O tempo parado. Bastante frio na rua. A neve já começava a cair sem pudor. E eu, sem nada saber, na sessão das 22:00h do cine-clube “Chapter”, vendo pela primeira vez na vida, um filme de John Carpenter. De repente , desaparece o som do filme e ouve-se um lacônico […]
DE POEMA (QUASE) EM PROSA – José Delfino

DE POEMA (QUASE) EM PROSA – Ah as palavras… Num vai e vem em minha mente se abrem e fecham em copas, como lábios. Como portas, como dedos de mãos que vagas imitam, em arco envergam-se. Sobem e descem às folhas de papel, se curvam se rendem e escrevem e não dizem. É […]
DE COISAS SIMPLES E COMPLEXAS – José Delfino

DE COISAS SIMPLES E COMPLEXAS – De manhã alguns oram ao acordar; outros, não. Detonam um copo d´água morna com limão para alcalinizar o organismo; engolem, quase de forma inconsciente, alguns comprimidos para que os parâmetros vitais continuem sob controle (as evidências das respostas a eles nos forçam a acreditar nisto). Devoramos tomates fatiados, ricos […]
O ANESTESIOLOGISTA – José Delfino

O Anestesiologista que não tem pulso ou capacidade rápida de decisão não sobrevive. Funciona assim: acontecendo uma parada cardíaca numa cirurgia ele tem poucos segundos pra fazer o coração bater novamente. Não interessa saber qual a causa da intercorrência. Depois de resolvido o que é emergente é que se inicia o processo de diagnóstico da […]
DE PAPO NUM SALÃO DE BELEZA – José Delfino

DE PAPO NUM SALÃO DE BELEZA – Dei um “break”, um final de manhã desses. Um pulinho no salão de Getúlio, quase ao meio-dia como de hábito, para por um basta à esta vasta cabeleira de terceira idade. A verdade é que conversa vai, conversa vem, entre os sons caóticos e atonais dos secadores de […]