VIRAMUNDO 40 –

– Mainha o que diabo é esse tal de Coronavírus?

Zezinho, 9 anos, encucado com essa história que tá deixando todo mundo preso dentro de casa.

– Filho é uma doença vinda da China que mata quem não se cuidar.

– Vots e precisa fica preso?

– Claro, se não você morre.

– E essa China aonde é?

– Do outro lado do mundo. Veio com o vento. Bota aqui a máscara pra se proteger.

Dona Severina, separada do marido quando Zezinho nasceu trabalhava como doméstica na casa do Dr Pedro, dentista do Sesi em Natal. Ela está de quarentena, em casa, com filho e um cachorro marrom, de nome Chinchan.

– Mainha essa máscara tem um cheiro de bosta quando eu falo.

– Então tire e vá lavar a boca e escovar os dentes.

– Com “alcugel”?

– Nao idiota. onde já se viu usar “alco” pra lavar boca?

– Sei lá é tanta invenção. Na escola a professora disse que era pra usar sabão de coco

– Tá bom. Vou falar com Dr Pedro pra cuidar dos seus dentes.

Zezinho lavou a boca e botou a máscara, de novo.

– Mãe, tem que usar esse negócio quando for dormir.

– Não.

– E se o vento pegar?

– Que vento, menino?

– Esse que vem da China.

– Sei não.

Zezinho ficou curioso e pediu a mãe uma máscara pro cachorro.

– Precisa não. Essa doença não pega em animais.

– É por que?

– Sei lá.

– Senhora também não sabe de nada.

– Me respeite Zezinho. Sou sua mãe.

– Mas num sabe de nada. Não usar mais esse troco. Vou ficar brincando com Chinchan que ele me protege.

E foi pra rua deserta com o cachorro e sem a máscara. Um deserto danado. Todo mundo enfurnado dentro de casa e dona Severina não aguentou.

– Zezinho olhe o vento. Venha já pra dentro. Fique brincando aqui. Lá fora é um perigo.

– Mais num tem ninguém na rua. Como é perigoso?

– Sei não. Só sei que é perigoso. Você pode se contaminar.

– Mais num tem ninguém como vou me contaminar. Com o vento é?

– Num sei. Fique aqui se não vai apanhar.

– Queria ter um pai pra me defender. Mãe, arranje um, pra mim.

– Deus me livre. Quero viver sozinha pra cuidar de você.

Dona Severina era uma mulher solitária, não tinha amigas e em casa costumava ficar sozinha ouvindo Bruno e Marrone. Chorava escondido pra Zezinho não ver.

Aí um dia chegou um carteiro que se engrossou com ela e foi logo fazer amizade com Zezinho e Chinchan.

Ele era simpatia e novo na área. Passava toda noite por la, mesmo sem ter correspondência pra entregar.

Num sábado de manhã trouxe um CD de Bruno e Marrone e almoçaram todos juntos uma deliciosa feijoada.

– Severina, você que fez?

– Claro, cozinhar é meu fraco.

– Acertaram fazer feijoada todo sábado pra vender em domicílio.

– Deixa passar essa peste chinesa que a gente monta um negócio.

Enquanto a quarentena não termina ficaram namorando pelo celular.

– Mainha, obrigado por arranjar um pai pra mim.

– Vira essa boca pra lá. Não sei dar quero.

– Num disse? A senhora num sabe Dr nada.

– Quer apanhar?

Outro dia perguntei a dona Severina se ela sentia saudade de alguma coisa.

– Das novelas da Globo.

 

 

Jaécio Carlos –  Produtor e apresentador dos programas Café da Tarde e Tribuna Livre, para Youtube.

As opiniões emitidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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