Com o aquecimento acima do normal da atmosfera, a tendência, segundo os meteorologistas, é que esse tipo de evento se torne cada vez mais comum – algo que pode ser potencializado peloEl Niño muito forte previsto para os próximos meses.
⚠️Mas os especialistas alertam que a ventania observada em São Paulo e no Rio de Janeiro não tem relação direta com esse fenômeno, ao contrário do que afirmou o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Cavaliere.
“Diretamente não está ligado, porque o que provocou a ventania em São Paulo e no Rio de Janeiro foi a chegada de uma frente fria”, afirma o coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, José Marengo.
“Esses locais estavam com temperaturas muito altas e a chegada dessa frente provocou um choque térmico muito forte, o que trouxe o que a gente chama de frente de rajada”, detalha o meteorologista.
O consenso entre os meteorologistas é que a possível ligação entre o El Niño e os eventos extremos observados nos últimos dias é, no máximo, indireta.
“O El Niño está confirmado, mas ele mal começou, está longe de estar no máximo. No Sudeste esse tipo de vento na estação seca é super raro”, alerta Marcelo Seluchi, coordenador no Cemaden.
Entenda mais sobre o que causou a ventania, as chuvas e o tornado abaixo.
Impactos do El Niño
️O El Niño é caracterizado pelo aquecimento acima do normal das águas do Oceano Pacífico, na faixa próxima ao equador. Ele acontece com frequência a cada dois a sete anos, mudando a circulação da atmosfera e alterando o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes partes do mundo.
César Soares, meteorologista da Climatempo, comenta que o El Niño faz com que os termômetros fiquem acima da média, mesmo fora de época, o que pode favorecer a ocorrência e manutenção de eventos extremos.
Mas os efeitos do fenômeno no clima do Brasil devem ser sentidos somente a partir da primavera, quando o El Niño deve ganhar força.
Historicamente, ele altera o padrão de chuva e temperatura no país e causa:
- aumento de chuva no Sul, com risco maior de eventos extremos;
- redução de chuvas no Norte e em partes do Nordeste;
- mais irregularidade nas precipitações no Sudeste e Centro-Oeste;
- maior frequência de ondas de calor.
Mesmo com a alternância entre La Niña, neutralidade e El Niño, os cientistas destacam que o aquecimento global continua sendo o principal fator por trás das mudanças no clima.
Ventania, chuvas fortes e tornado: o que causou cada um?
Os meteorologistas explicam que ainda que todos sejam eventos extremos do clima, cada um dos registros dessa semana – ventania, chuvas fortes e tornado – teve uma causa diferente:
- Ventania em São Paulo e no Rio de Janeiro
Os ventos que passaram dos 120 km/h e provocaram mortes, quedas de árvores, destelhamentos, falta de energia e interrupções no transporte em São Paulo e no Rio de Janeiro foram intensificados pelo forte contraste entre duas massas de ar com características muito diferentes.
Essa diferença acentuada de temperatura e umidade favoreceu a formação de ventos muito fortes e organizados, fenômeno conhecido na meteorologia como frente de rajada.
➡️ Em resumo, três fatores ajudaram a intensificar a ventania:
- o calor e o tempo seco que predominavam no Sudeste;
- a chegada de ar mais frio e úmido com a frente fria;
- o forte contraste de temperatura e umidade entre essas massas de ar.
Pedro Camarinha, especialista em Mudanças Climáticas e Desastres, explica que a frente de rajada faz parte do avanço das frentes frias que vêm do Sul e passam pelo Sudeste.
“Essa frente de rajada é bem recorrente nas frentes frias mais intensas. Só que isso não é muito comum nessa época do ano, é bem raro. Normalmente, nos períodos de transição, a partir de setembro, outubro, novembro, a gente tem isso mais bem configurado”, analisa.
- Chuvas fortes e tornado no Rio Grande do Sul
Também nesta semana, diversas cidades no Rio Grande do Sul entraram em estado de alerta por conta dos temporais que atingiram a região.
Uma forte frente fria foi a responsável por levar chuva forte, raios, granizo e rajadas de vento a boa parte do estado.
Mas, nesse caso, os meteorologistas afirmam que há uma relação já estabelecida com o El Niño.
Seluchi explica que especialmente a manutenção da chuva por vários dias consecutivos é um efeito do fenômeno.
“Durante anos do El Niño, os ventos de alto nível ficam mais estáveis e fortes em uma determinada região e ela passa pelo Sul do Brasil. Isso contribui para a alteração no regime de chuvas na região”, comenta.
César Soares ainda acrescenta que as condições de temperatura mais altas durante o período de El Niño fazem com que os temporais se tornem mais frequentes no Sul, favorecendo também a formação de tornados.
Também nesta semana, um tornado atingiu a região noroeste do Rio Grande do Sul e causou estragos em pelo menos três municípios.
O que esperar do El Niño este ano?
O El Niño já se formou no Oceano Pacífico e deve ganhar força rapidamente nos próximos meses, aumentando o risco de ondas de calor, secas, chuvas intensas e outros eventos extremos em diferentes partes do mundo.
O alerta foi divulgado no início de julho pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência das Nações Unidas responsável por acompanhar o clima.
As projeções dos principais centros meteorológicos indicam um aquecimento expressivo das águas do Pacífico equatorial, especialmente nas porções central e leste do oceano.
Em algumas das áreas usadas para monitorar o fenômeno, a temperatura da superfície do mar pode ficar mais de 2°C acima da média.
Segundo a agência oceânica e atmosférica norte-americana (NOAA), os modelos indicam que o índice Niño-3.4, principal referência usada para acompanhar o fenômeno, já está em +1,2°C, o que aumenta a confiança de que o episódio será classificado como muito forte.
A tendência é que o El Niño continue se intensificando ao longo do segundo semestre e atinja o pico entre novembro e fevereiro.
“O El Niño já está em curso e deve se fortalecer rapidamente, transformando-se em um evento forte”, afirmou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo.
Ela alertou que o fenômeno eleva as chances de secas e chuvas intensas, além de ondas de calor tanto em áreas continentais quanto nos oceanos.
A força do El Niño, contudo, depende do quanto o Pacífico Equatorial vai aquecer nos próximos meses e, principalmente, de como a atmosfera vai responder a esse aquecimento.
Para que o fenômeno ganhe intensidade, não basta o oceano ficar mais quente: é preciso que o sistema oceano-atmosfera passe a atuar de forma acoplada e persistente.
Desde 2006, uma sequência de episódios de El Niño vem mudando cada vez mais o clima do planeta, que já está mais quente que no passado.
Mesmo quando são considerados fracos ou moderados, esses eventos acontecem em um mundo aquecido e acabam aumentando o risco de extremos, como secas, enchentes e ondas de calor. Veja:
- 2006–2007: El Niño fraco a moderado.
- 2009–2010: El Niño moderado.
- 2014–2016: El Niño muito forte, ligado a recordes de calor e extremos mais frequentes.
- 2018–2019: El Niño fraco a moderado, mais curto e com impactos mais limitados.
- 2023–2024: El Niño forte, um dos mais intensos já registrados, associado a novos recordes de calor.
Fonte: G1RN
