SONATA DA SAUDADE –
Acordo pela manhã para mais um dia de trabalho. Preparo o café e vou tomá-lo sentado no sofá, olhando para a sala vazia enquanto todos ainda dormem. Um sentimento melancólico me atinge. Observo a minha mesa no pequeno escritório da casa e vejo a moldura com um retrato de um casamento do qual mal me lembro. A memória consumida pelo tempo… Meu filho estava nos meus braços naquela foto eternizada.
Dirijo-me ao computador na tentativa de registrar com palavras esse meu sentimento. Meus dedos dançam pelas teclas, buscando traduzir em texto a saudade que me invade. Preciso sair para mais um dia de trabalho, preciso terminar essa xícara de café, enquanto a fotografia na mesa confronta-me com a realidade: meu filho, meu menino, está longe.
A distância física é apenas um detalhe quando o coração se recusa a acreditar na separação. Cada lembrança é como um raio de sol que aquece a alma: seu sorriso contagiante, seus abraços apertados, nossas brincadeiras intermináveis. A saudade dói, mas também alimenta a esperança de um reencontro breve.
Imagino-o agora, em seu quarto, na sua escola, imerso em seu eterno jogo no celular. Estudando, crescendo, construindo seu próprio caminho. A saudade aperta o meu peito, mas o orgulho me faz sorrir. Ele está trilhando a sua jornada do outro lado do país, conquistando o seu espaço no mundo.
Diante desse pensamento reconfortante, minha melancolia se transforma e assume um sentimento mais alegre. O riso vem fácil e minha mente divaga contando histórias de um futuro esperançoso. Vejo-o formado, realizado e feliz. A saudade ainda existe, mas agora se mistura com a alegria da antecipação.
De repente, ao sair de casa, todos os sentimentos se dissolvem no ar, deixando apenas o eco da saudade e do amor. Fecho os olhos e sussurro: ‘Te amo, meu filho. Volte logo para casa.’ A saudade é como uma sonata da alma que anseia pelo retorno do acorde principal: a presença do meu menino.
João Marcelo Pinto Dantas – Advogado e Jornalista
