SE NÃO VIRASSE CRÔNICA, VIRARIA TRAUMA –

O dia em que o pedreiro mais esperado do Rio Grande do Norte finalmente chegou (e trouxe o dilúvio junto).

Existem dois tipos de pedreiro pelas bandas de cá: o que diz que vai e não vai, e o que vai e quebra o cano. Sim, eu esperei três meses pelo primeiro tipo, alimentando a doce ilusão de que o meu projeto residencial seria pacífico. Hoje, finalmente, conheci o segundo tipo, nesse caso, a nova versão do primeiro. Apresento-lhes o Seu João.

Tudo começou às 7h30 da manhã em ponto. E isso, por si só, num estado onde o “horário de pedreiro” costuma rivalizar com o fuso horário de outro planeta, já merecia uma crônica inteira ou uma placa de menção honrosa na calçada. Eu nem acreditei quando o interfone tocou e a portaria anunciou, com a voz solene de quem comunica um evento histórico: “— Dona Flávia, a senhora está esperando o Seu João?” respondi de pronto “— SIM! Tem quase três meses que o espero chegar.”

Ele chegou, de verdade. Não era miragem do calor potiguar. Ele veio em uma picape, carregando o material para encostar, com a colher de pedreiro em riste e — pasmem — com palavra. Prometeu ontem que estaria aqui às 7h30 e lá estava ele, firme e forte na porta do Bloco 8, Casa 5, aqui no Pitanga, Parnamirim. Veio pronto para transformar minha antiga e ambiciosa ideia de uma ilha gourmet (que a crise e o bom senso já haviam rebaixado para uma bancada americana) em pura realidade de tijolo e cimento.

Olhei para aquela cena e pensei com os meus botões: agora vai! Depois de quase um trimestre de pura enrolação, de desculpas que iam desde pneus furados até viroses misteriosas que só atacam nas segundas-feiras, a reforma finalmente ia andar. Pensei que, depois da minha cervejeira, a Beer House, ter ido e voltado do Morro do Careca, após um curto período de férias, retornar mais gelada do que nunca, isso, enquanto eu esperava e sonhava com a minha cozinha, ela finalmente ganharia a dignidade que merecia.

E andou. A reforma andou por exatos quarenta minutos de pura glória e otimismo.

Seu João, com a imponência de um maestro, ligou a maquita. Aquele barulho ensurdecedor que, para quem está ansiosa pela reforma, soa como a mais linda nona sinfonia de Beethoven, mas que para o resto da vizinhança é puro terror psicológico. O plano era simples e infalível: fixar uns ferros na parede para dar firmeza à minha tão sonhada extensão gourmet. Ele mediu com precisão milimétrica, marcou com o lápis atrás da orelha, fechou os olhos para fazer aquela oração silenciosa que todo pedreiro faz antes de rasgar uma alvenaria e… furou.

Tchbum! Acertou em cheio um cano. E não foi um furinho de nada, daqueles que a gente esconde com um prego e reza para passar. Foi uma cena digna de cinema a lá “besteirol americano”, sem exagero, era água para todo lado, subindo até o teto, parecia que a própria Lagoa do Bonfim tinha decidido invadir a minha cozinha com força total. No meio do caos, o protocolo de emergência foi esquecido, eu gritava desesperada: “Fecha o registro, Seu João!”, ele, dando voltas em torno do próprio eixo no meio do redemoinho, gritava de volta: “Cadê o registro, Dona Flávia?!”. A água, completamente indiferente ao nosso desespero, à minha bancada americana e ao meu piso limpo, jorrava como uma fonte luminosa de praça do interior em dia de festa de padroeiro.

Corremos os dois, enlameados de reboco e água, em direção ao registro geral, Seu João, assumindo uma postura heroica, com a mão na massa — literalmente agora, e na inundação também —, tentou girar a válvula, fez força. Fez a força de um titã, achou pouco e fez mais força ainda, e… crack. O registro quebrou, na mão dele. Instalou-se um silêncio sepulcral no recinto, quebrado apenas pelo som fúnebre da água que continuava correndo livre, leve e solta pela casa. Ficamos os dois ali, completamente encharcados da cabeça aos pés, no meio de uma cozinha que não tinha mais ilha, não tinha bancada americana e, agora, não tinha utilidade nenhuma.

E então, aconteceu aquilo que só acontece em obra ou em final de comédia pastelão: a gente começou a rir, uma gargalhada nervosa, daquelas que brotam do fundo da alma, porque a outra opção era sentar no chão molhado e chorar copiosamente, e convenhamos, chorar com a casa já alagada é puro desperdício de líquido. Agora estou aqui, escrevendo estas linhas com os pés para cima no sofá para não molhar as sandálias, prestes a ir à loja de material de construção comprar um registro novinho em folha. Porque obra com o Seu João é assim: a gente planeja uma linda bancada decorativa e ganha, de brinde, uma aula intensiva de engenharia hidráulica aplicada sob pressão.

Mas quer saber o que eu realmente aprendi nesses três longos meses de espera e nessas três horas de água jorrando pela casa? Aprendi que reforma é exatamente igual à vida. A gente passa um tempão esperando as coisas acontecerem, idealiza o cenário perfeito, muda de ideia no caminho — de ilha para bancada americana —, e quando o projeto finalmente começa a sair do papel, o cano estoura. O registro quebra na nossa mão. Dá tudo absolutamente errado, para só então começar a dar certo.

Seu João continua lá em casa, firme como uma rocha, sentado no seco e esperando eu voltar com a peça nova. A Beer House continua no seu devido lugar, gelando as cervejas e refrigerantes para quando esse pesadelo acabar eu sentar no batente da cozinha e tomar uma gela, para dar uma relaxada, afinal, mais que merecido, né! E eu? continuo aqui escrevendo, com o coração leve, porque se a gente não transformar esses pequenos desastres cotidianos em crônica, eles viram trauma para o resto da vida. Amanhã tem mais. Com água encanada sob controle, se Deus quiser, e com um registro que funcione. Que venham os próximos imprevistos da engenharia, porque se em três meses eu mudei de ideia entre uma ilha e uma bancada, imagina o tanto de coisa que eu não sou capaz de mudar até o final desta obra.

Isso, claro, se o Seu João não descobrir outro cano pelo caminho.

Pitanga, Parnamirim, 20 de outubro de 2026. De uma casa temporariamente sem água, mas transbordando história para contar.

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]

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