Reeleito presidente da República, após virada histórica, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou no seu primeiro discurso que ele e sua coligação tiveram de vencer o que chamou de “intromissão” externa de plataformas.

O presidente disse que, no novo mandato, vai mudar a forma de governar, com melhoria na comunicação digital e a ampliação da participação popular nas ações governamentais.

O petista falou também em atuar em conjunto com o Congresso Nacional, apesar da grande quantidade de parlamentares de oposição ao governo eleita neste ano.

Na avenida Paulista, em novo discurso, a uma multidão que o aguardava, agradeceu a Deus e dedicou a virada aos jovens, às mulheres e aos trabalhadores.

Virada nas urnas

Às vésperas de completar 81 anos, o que ocorrerá na próxima terça-feira (27), o petista se tornou, ao derrotar Flávio Bolsonaro (PL), o primeiro presidente da história do Brasil a ser eleito quatro vezes pelo voto popular.

A confirmação da vitória de Lula foi feita pelo sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às 21h08, quando 97% das urnas já tinham sido apuradas. Àquela altura, Lula tinha 51,74% e Flávio tinha 48,26%. Com a totalização das urnas às 23h30, Lula ficou com 51,79% e Flávio, 48,21%.

“Essa eleição foi uma eleição que a gente teve que vencer a intromissão, vinda de fora para dentro, através de plataformas digitais, que nós vamos ter que regulá-las. Não é possível que a gente não tenha consciência que o crime do mundo digital tenha que ser tratado igual ao crime da vida real”, afirmou Lula.

Vitória contra o negacionismo

Lula também disse que o resultado da eleição foi uma “derrota para o negacionismo e para a mentira”. E fez críticas a Flávio Bolsonaro.

“Nunca pensei em me deparar com um representante genuíno do ‘milicianismo’ neste país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto, com tanta desfaçatez, como se não tivesse, dentro dele, uma célula de humanismo, parece tudo falso”, afirmou.

O petista também disse que pretende desenvolver uma inteligência artificial brasileira. E agradeceu a integrantes da campanha, como o deputado André Janones (Rede-MG), que coordenou o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, com mais de 10 milhões de inscritos, na campanha eleitoral.

“E quero dizer que uma coisa eu aprendi. Eu não vou falar aqui para vocês, mas essa eleição me ensinou muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar esse país. Quero dizer para vocês que nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões, a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo”, declarou.

 

Oposição no Congresso

Lula também falou sobre a oposição que deve enfrentar no Congresso Nacional, que será composto em grande parte por políticos que apoiaram Flávio Bolsonaro na eleição presidencial.

O petista minimizou o cenário de adversidade e disse que não escolheu o Congresso eleito. O presidente afirmou que governará em conjunto com os parlamentares.

“Se depender de mim, esse país só tem que ser civilizado, esse país tem uma Constituição. Ninguém é obrigado a gostar do presidente eleito, mas ele foi eleito para governar para todos e ele foi eleito para governar com base no respeito à Constituição”, afirmou Lula.

“Na relação com o Congresso… Porque já tem gente falando que o Lula vai ter muita dificuldade para governar, porque o Congresso está muito conservador… Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas”, afirmou.

 

Ele também disse que o quarto mandato será o melhor de todos que já teve.

‘Corinthians parece o Bolsonaro, só perde’

A virada histórica que garantiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) um quarto mandato inédito foi resultado de uma combinação de fatores: mais eleitores nas urnas, menos votos brancos e nulos, crescimento da votação do petista em todos os estados e perda de votos de Flávio Bolsonaro (PL) em parte do país.

Lula saiu de uma desvantagem de 2,2 milhões de votos para Flávio Bolsonaro no primeiro turno, a menor desde a redemocratização, para uma vantagem de 4,4 milhões no segundo. Uma virada de 6,6 milhões de votos na diferença entre os candidatos.

Com 100% das seções apuradas, o presidente recebeu 64.256.232 votos, ou 51,79% dos válidos, contra 59.826.041 de Flávio, equivalente a 48,21%.

Para chegar à vitória, Lula conquistou 10,3 milhões de votos a mais entre os dois turnos, quase três vezes o crescimento de Flávio Bolsonaro, que ganhou 3,7 milhões. Do total de votos adicionais recebidos pelos dois candidatos, 73,6% foram para o petista.

O avanço de Lula foi maior do que a soma dos votos recebidos por todos os outros candidatos derrotados no 1º turno. Juntos, os demais concorrentes, incluindo Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão) e Romeu Zema (Novo), tiveram 9,3 milhões de votos, cerca de 1 milhão a menos do que o crescimento registrado pelo presidente.

Isso significa que, mesmo que todos os eleitores dos candidatos derrotados tivessem migrado para Lula, esses votos não seriam suficientes para explicar o aumento de sua votação.

A virada também passou pela mudança no comparecimento às urnas. A abstenção caiu de 21,08% no primeiro turno para 19,21% no segundo, atingindo a menor taxa em 20 anos. Com isso, 2,83 milhões de eleitores a mais participaram da votação.

Ao mesmo tempo, os votos brancos e nulos diminuíram de 5,98 milhões para 4,15 milhões, uma redução de 1,83 milhão.

Somados, o aumento do comparecimento e a queda de brancos e nulos acrescentaram aproximadamente 4,66 milhões de votos válidos à disputa. Esses movimentos, junto com os votos dos candidatos eliminados, compuseram o cenário que permitiu a Lula ampliar sua votação e ultrapassar Flávio.

Minas Gerais manteve a tradição de espelhar o resultado nacional e foi o único estado em que Lula conseguiu virar a disputa contra Flávio Bolsonaro no segundo turno. O petista venceu com 50,43% dos votos, ante 49,57% do adversário, que havia liderado no primeiro turno.

Lula também ampliou sua votação em todos os estados e no Distrito Federal entre os dois turnos. Os maiores ganhos em números absolutos ocorreram em São Paulo, onde Lula passou de 9.505.413 para 12.119.274 votos, um aumento de 2.613.861. Na sequência, aparecem Minas Gerais, com 1.162.163 votos a mais, e Rio de Janeiro, com um acréscimo de 872.372 votos.

A mudança também apareceu no mapa eleitoral. Lula virou o resultado em 211 cidades onde Flávio havia vencido no primeiro turno, incluindo a cidade do Rio de Janeiro. O senador conseguiu fazer o caminho inverso em apenas um município.

A virada também se repetiu em 76 municípios mineiros, o maior número do país. Em seguida, aparecem as cidades de São Paulo (32), Paraná (20) e Rio Grande do Sul (19). Ao todo, municípios de 18 estados registraram inversões de resultado entre os dois turnos.

Enquanto Lula ampliou sua votação em todos os estados, Flávio terminou o segundo turno com menos votos em seis unidades da federação.

A virada de Lula foi impulsionada pela vitória em Minas Gerais, pela diminuição da vantagem de Flávio Bolsonaro em grandes colégios eleitorais do Sudeste e pelo crescimento da votação do petista no Nordeste, onde ampliou sua liderança. Na região, conquistou quase 3 milhões de votos adicionais, passando de 21,5 milhões para 24,5 milhões, um crescimento de 13,75%.

O senador também perdeu eleitores em 939 municípios, mesmo com o crescimento de sua votação no total do país. Nessas cidades, Flávio recebeu 134.091 votos a menos do que no primeiro turno.

O Maranhão liderou o número de municípios em que o candidato do PL perdeu votos, com 171 cidades, seguido por Tocantins (115), Piauí (110), Rio Grande do Norte (78) e Pará (78).

Em números absolutos, a maior queda ocorreu em Macapá (AP), onde Flávio passou de 124.378 votos no primeiro turno para 120.593 no segundo, uma redução de 3.785 votos.

A combinação desses movimentos levou Lula à maior votação já registrada por um candidato à Presidência da República no Brasil. Os 64,2 milhões de votos superaram o recorde anterior, que também pertencia ao petista: 60,3 milhões na vitória sobre Jair Bolsonaro em 2022.

Lula também ampliou a vantagem obtida naquela eleição. Em 2022, venceu por 2,1 milhões de votos. Desta vez, a diferença chegou a 4,4 milhões.

Lula avança em 97% das cidades

O presidente melhorou o saldo de votos sobre Flávio Bolsonaro em 5.410 dos 5.570 municípios do Brasil entre o primeiro e o segundo turno, cerca de 97% do total.

As maiores mudanças a favor do petista aparecem no Sul e no Sudeste, sobretudo em São Paulo, no Paraná, em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e em Mato Grosso do Sul, além do litoral do Nordeste, do Rio Grande do Norte a Alagoas. A tendência também é clara no Centro-Oeste e em toda a Região Norte.

Os 160 municípios onde Flávio ganhou terreno se concentram em uma área bem definida: o interior da Bahia, o norte de Minas Gerais e trechos do sertão de Pernambuco e do Piauí. São regiões em que Lula já tinha votações expressivas no primeiro turno, o que deixa pouca margem para novos avanços.

Comparecimento às urnas sobe em 87% das cidades

Mais eleitores foram às urnas no segundo turno do que no primeiro turno: o número de votantes subiu em 4.858 cidades, 87% do total.

A alta foi praticamente uniforme no Sul, no Sudeste, no Centro-Oeste e no litoral nordestino, justamente onde estão algumas das maiores variações a favor de Lula.

As quedas no comparecimento ficaram concentradas na Região Norte, especialmente no Acre, no Amazonas, em Roraima e no Pará, e em uma faixa que atravessa o interior do Tocantins e do Maranhão. Mesmo nessas áreas, porém, o saldo do petista melhorou.

Flávio teve menos votos do que no 1º turno em 939 cidades

O candidato do PL teve menos votos em 939 cidades no segundo turno das eleições de 2026 em comparação com o primeiro turno. Somados, esses municípios registraram uma redução de 134.091 votos para o candidato entre os dois turnos.

Dados do TSE compilados pelo g1 mostram que o Maranhão concentra o maior número de municípios em que Flávio teve menos votos no segundo turno, com 171 cidades, seguido por Tocantins (115), Piauí (110), Rio Grande do Norte (78) e Pará (78).

A maior redução em números absolutos ocorreu em Macapá (AP). Flávio Bolsonaro passou de 124.378 votos no primeiro turno para 120.593 no segundo, uma queda de 3.785 votos.

O recorte das 939 cidades não significa que Flávio tenha perdido votos no país como um todo. No resultado nacional, o senador passou de 56.104.503 votos no primeiro turno para 59.826.041 no segundo turno, um crescimento de 3.721.538 votos, ou 6,63%.

Veja os 10 municípios em que Flávio Bolsonaro mais perdeu votos do primeiro para o segundo turno.

  1. Macapá (AP): -3.785
  2. Sena Madureira (AC): -2.292
  3. Tarauacá (AC): -2.135
  4. Cruzeiro do Sul (AC): -2.069
  5. Campos dos Goytacazes (RJ): -1.389
  6. Rorainópolis (RR): -1.389
  7. Manacapuru (AM): -1.354
  8. Marechal Thaumaturgo (AC): -1.352
  9. Santana (AP): -1.350
  10. Oriximiná (PA): -1.305

Nesse mesmo recorte de 939 municípios, Lula teve o movimento oposto: ganhou 486.898 votos entre os dois turnos e ampliou sua votação em 863 cidades, ou 91,9% do total.

Lula abriu a maior vantagem no Piauí, e Flávio, em Roraima

Lula abriu a maior vantagem sobre Flávio Bolsonaro no Piauí, já o senador superou o presidente com maior folga em Roraima, mostram dados do TSE.

No Piauí, Lula recebeu 75,88% dos votos válidos, contra 24,12% de Flávio. A diferença foi de 51,76 pontos percentuais, a maior registrada entre os candidatos em um estado.

Em Roraima, Flávio teve 72,46%, enquanto Lula recebeu 27,54%. A vantagem do candidato do PL foi de 44,92 pontos percentuais.

A vantagem é a diferença entre os percentuais de votos válidos dos dois candidatos, expressa em pontos percentuais. Os cálculos abaixo usam os percentuais divulgados com duas casas decimais.

Fonte: G1

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