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Um estudo inédito de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e da Universidade Federal do Ceará (UFC) identificou cinco novas Áreas em Processos de Desertificação (APD) no Rio Grande do Norte, o que faz o fenômeno atingir pelo menos 62 municípios do estado. Segundo o levantamento, isso representa cerca de 15% do território potiguar – 8.359 km².
Historicamente, o Rio Grande do Norte sempre considerou a existência de apenas uma área em processo de desertificação: o chamado Núcleo do Seridó – ou Seridó Oriental – com seis municípios. Essa APD tem território de 696 km² .
Nesta quarta-feira (17) é celebrado o Dia Mundial do Combate à Seca e à Desertificação.
Os dados se referem a territórios delimitados pelo estudo: as bacias hidrográficas do Apodi-Mossoró e Piranhas-Açú, as duas maiores áreas hidrográficas do estado.
As cinco novas áreas apontadas na pesquisa são:
- APD Pau dos Ferros: 1.061 km²;
- APD Rodolfo Fernandes: 680 km²;
- APD Caraúbas: 1.500 km²;
- APD Sertão Central: 2.580 km²;
- APD Seridó Ocidental: 1.842 km²;
Os dados são resultado de uma pesquisa e monitoramento de quase 10 anos dos geógrafos Anny Catarina Nobre de Souza e Sérgio Domiciano Gomes de Souza. No estudo, eles investigam a ocorrência e a distribuição espacial da desertificação no RN.
“Das seis APDs identificadas, apenas uma já era amplamente reconhecida pela literatura científica e por órgãos governamentais: a APD Seridó Oriental (Núcleo), correspondente ao tradicional Núcleo de Desertificação do Seridó”, explicou Anny Catarina de Souza.
A pesquisa mapeia os níveis de suscetibilidade à desertificação, onde o fenômeno pode ocorrer, e também identifica e delimita as Áreas em Processo de Desertificação.
Segundo os pesquisadores, as APDs são as áreas onde o fenômeno já está efetivamente instalado e produzindo impactos ambientais significativos.
“A principal contribuição do estudo é demonstrar, com base em evidências científicas – laboratoriais e de campo – que a desertificação no Rio Grande do Norte é mais ampla do que se imaginava, ultrapassando os limites do tradicional Núcleo do Seridó e alcançando novas áreas do Oeste e da região central do estado”, explicou Anny Catarina.
Além da identificação das novas cinco áreas, o estudo atualiza ainda o Núcleo Seridó, única APD considerada anteriormente e considerada a área mais emblemática da desertificação no estado até então.
“Historicamente, o Núcleo Seridó é delimitado com base nos limites político-administrativos de seis municípios. Com a realização deste estudo, foi possível atualizar e refinar essa delimitação, identificando com maior precisão onde o processo ocorre, com base em critérios ambientais e não político-administrativos”, explicou o pesquisador Sérgio Domiciano de Souza.
O que causou a desertificação no RN
Segundo a pesquisadora Anny Catarina Souza, a partir dos estudos de mapeamento é possível afirmar que o processo de desertificação no Rio Grande do Norte acontece pela combinação de fatores ambientais.
“A semiaridez climática, as atividades extrativistas – desmatamento, pecuária, agricultura e mineração – sem manejo adequado e sob ambientes com restrição de recursos naturais, associados a solos rasos e pedregosos afetados por erosão, escassez hídrica e recorrência de secas”, explicou.
Os pesquisadores explicaram que o processo de desertificação – conforme a definição oficial adotada pela Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD) – só ocorre nas chamadas “terras secas”, ou seja, naquelas que possuem climas áridos, semiáridos e subúmidos secos com índice de aridez variando de 0.05 a 0.65.
Segundo os pesquisadores, a desertificação, no geral, resulta da combinação entre fatores naturais e humanos.
“Ainda que seja um fenômeno da natureza pela sua condição climática, a interferência humana de forma desordenada e degradante sobre os recursos naturais é um acelerador desse processo, e em alguns territórios a causa mais visível da degradação da terra”, explicou a pesquisadora Anny Catarina de Souza.
O estudo aponta um monitoramento do processo de desertificação, através de dados por satélite, que indicam sinais de degradação ambiental persistentes há mais de 40 anos no RN – desde 1984 pelo menos.
O pesquisador Sérgio Domiciano de Souza explicou que a desertificação é um processo gradual, cumulativo e dinâmico, que não surge de forma repentina na paisagem, “pois é desencadeada por atividades humanas que degradam a terra, sobretudo extrativistas que suprimem a vegetação”.
Segundo o pesquisador, é possível afirmar que o processo remonta “ao próprio processo de ocupação territorial dessas localidades, desde os séculos passados”.
Processo não é irreversível, mas exige atenção
Os especialistas explicam que parte das terras em processo de desertificação pode ser recuperada, mas isso depende também do avanço do fenômeno e das intervenções feitas.
Nas áreas do Rio Grande do Norte, eles indicam que “não se pode afirmar que são irreversíveis, pois exigem estudos de outra complexidade”.
Apesar disso, a pesquisadora Anny Catarina Souza explica que a gravidade da desertificação nessas áreas “se dá exatamente pela configuração ambiental frágil em que impera especialmente restrições de solo e escassez hídrica com recorrência de secas que faz com que a própria natureza sozinha não tenha a capacidade de regenerar a biomassa, sobretudo quando submetida a constantes intervenções humanas”.
“A exemplo, o monitoramento de 40 anos e visitas em campo demonstram esse fato, inclusive com registros de vegetação morta mesmo em períodos de chuva”, completou.
A geógrafa explica que, a depender do grau do processo, áreas podem ser recuperadas ou estabilizadas por meio da intervenção humana com práticas adequadas de manejo, restauração ambiental e tecnologias de convivência com o semiárido.
Entretanto, quanto mais avançado o processo, maior o custo e a dificuldade da recuperação, afirma.
O que pode ser feito para mitigar o problema
Para os pesquidores, o primeiro passo de uma política pública para enfrentar a desertificação é reconhecer que ele é um fenômeno espacial.
“Disso resulta o que o Estado precisa saber: onde ocorre? Quais os níveis? O que causa? A quem afeta? Daí as ações deverão ser direcionadas a essas frentes”, falou o geógrafo Sérgio Domiciano.
Os pesquisadores apontam que o enfrentamento da desertificação exige ações integradas de curto, médio e longo prazo. Entre as principais medidas, ele cita:
- recuperação de áreas degradadas;
- recaatingamento com recomposição vegetal;
- manejo sustentável dos solos;
- monitoramento contínuo das áreas vulneráveis;
- controle do desmatamento;
- assistência técnica aos produtores rurais;
- fortalecimento da agricultura e pecuária em bases sustentáveis;
- difusão e diversificação das tecnologias de convivência com o semiárido e de adaptação à emergência climática.
Estudo localizou com maior precisão áreas em desertificação
Os resultados da pesquisa são frutos de uma investigação contínua dos pesquisadores, que estão em fase de conclusão do Doutorado em Geografia pela UFRN.
A pesquisa apontou os níveis de suscetibilidade à desertificação e as Áreas em Processo de Desertificação, que foram determinados da seguinte forma pelos pesquisadores:
Níveis de sucetibilidade e APDs
| Os níveis de suscetibilidade à desertificação no estado foram determinados considerando a diversidade de sistemas ambientais e suas respectivas condições físicas-naturais e de uso e ocupação a partir de um diagnóstico geoambiental e a sistematização de indicadores que aferem os diferentes níveis de predisposição do ambiente e este problema. Cujo os resultados já vêm sendo apresentados junto à comunidade científica desde o ano de 2024. |
| Já as APD’s foram identificadas e mapeadas combinando técnicas de sensoriamento remoto, análise geoespacial e trabalhos de campo. Foram adotados um índice espectral chamado SAVI (Índice de Vegetação Ajustado ao Solo), combinados com cruzamento das tipologias de uso cobertura da terra e verificação das feições de superfície do solo por satélite de boa resolução espacial, que posteriormente foram validadas com a comprovação da verdade terrestre em trabalho de campo. |
Segundo o pesquisador Sérgio Domiciano, o estudo permite “localizar com maior precisão as áreas mais críticas em desertificação do estado de forma atualizada”, com:
- informações técnicas e científicas fundamentais para o planejamento ambiental;
- gestão sustentável dos recursos naturais;
- e a recuperação dessas áreas, que cumprem a função de subsídios para efetivação da Lei Estadual de Combate à Desertificação (Lei Estadual nº 10.154/2017) com a criação do cadastro estadual das áreas em Desertificação.
“O mapeamento dos níveis de suscetibilidade é inédito pois não existe nenhum outro dessa natureza a nível estadual, ainda mais porque nele consideramos critérios ambientais fidedignos a essência do problema para que seja possível saber onde de fato o problema pode e onde não pode ocorrer, em função do nível de suscetibilidade que varia conforme a diversidade de condições ambientais do território do estado”, explicou Sérgio Domiciano.
Fonte: G1RN