Encantamento e Envolvimento: A Surpreendente História de um Súdito –

Capítulo I – A Descoberta

1966. Trago na lembrança, dentro de um ônibus e na volta de curtas férias na cidade dos Palmares (PE), a transmissão de um jogo do Brasil, na Copa daquele ano. Pela primeira vez ouvia falar de Pelé, cujas referências do locutor ainda inflamam minha memória. Afinal, no repetir da locução, tentava entender o que danado seria “sair machucado”. Com a curiosidade de criança, recorri ao meu pai.

– Papai, quem é Pelé?
– O maior jogador do mundo, filho. Parece que não irá mais jogar. Machucou-se.
– O que é isso?
– Os jogadores do outro time bateram muito nele, meu filho. Para tirar de campo quem é bom.

Ali se deu minha descoberta. Do futebol e de Pelé. Passei a me interessar pelo tema.

Capítulo II – O Filme

1967. Foi tanto o interesse por futebol, que o acompanhava pelas rádios, pelos jornais e pela TV. O que estivesse ao alcance do meu pai, claro. Mas, foi o cinema, na velha sala do Atlântico, no bairro do Pina, que iniciei minha jornada, como pequeno súdito do Rei. Devo isso ao meu pai, que me levou ao Atlântico, para que pudesse assistir ao meu primeiro filme: “O Rei Pelé”. Nunca imaginei que aquela despretensiosa presença na sala de cinema fosse algo decisivo. Quase 30 anos depois, percebi uma correlação vital perdida no tempo, que explico melhor à frente.

Capítulo III – O Milésimo

1969. Coube ao Maracanã o registro do um marco consagrador na carreira do Rei: o milésimo gol. Concentrei-me naquela noite quente de novembro, para ver Pelé comemorar aquela marca impressionante. Nunca esqueço dos tapas no chão, dados pelo goleiro Andrada, inconformado por não ter impedido mais uma conquista que pontuou a realeza.

Capítulo IV – O Primeiro Jogo

1970. Após as eliminatórias e antes de seguir para o México, a Seleção Brasileira passou pelo Recife, para um jogo amistoso com a Seleção Pernambucana. Foi a primeira vez que vi o Rei jogar, na mesma Ilha do Retiro dos meus primeiros jogos como torcedor do Sport. O baile dos 6 a 1 foi menos importante do que qualquer jogada que Pelé fez naquele dia inesquecível. Que bom foi estar lá.

Capítulo V – A Primeira Copa

1970. Como não falar do tricampeonato no México? Nenhum time foi tão marcante nos meus quase 62 anos de vida. Se consigo até hoje lembrar de cada gol marcado, como posso esquecer das jogadas do Rei, justo na Copa em que assinou suas obras com o toque de gênio? Um arte incomum, sobrenatural, só reservada a raros humanos. Nada igual.

Capítulo VI – A Despedida

1971. Cerca de 140 mil torcedores acompanham o último jogo do Rei com a camisa da Seleção. Lembro disso com as mesmas lágrimas que, no Maracanã, faziam com que os torcedores não aceitassem o fim de uma convivência de 14 anos entre Pelé e Seleção. Hoje consigo entender a quão foi pouco. Ou melhor, o tempo e a distância me afastaram do papel de torcedor e fã. Foi o triste fim de uma fase. Durou pouco para mim.

De certo modo, que bom me revelar aqui como um súdito diferente, talvez por sorte e oportunidade. É que vivi uma circunstância não muito comum à minha realidade cotidiana. Por isso, atrevo-me a contar aqui o que foi o início de uma fase surpreendente, de convivências pontuais com Pelé. Assim, superei a fase do mais puro encantamento, para um momento inesperado de pleno envolvimento. Algo que fez mudar minha vida. Ter Pelé no protagonismo da minha vida é algo inacreditável.

1994. Para mim, foi um ano marcante, em várias situações. Em se tratando de futebol, já antecipo aqui duas situações: fui um dos primeiros que receberam os atletas do penta (com direito a pegar na Copa) e ainda, em plena Lisboa, pude conhecer o mito Eusébio. Com este, poder ainda conversar, longamente. Fatos nada comuns para um pacato cidadão.

Não obstante esses fatos raros, o exercício profissional que vivi naquele ano, permitiu-me conhecer pessoalmente meu ídolo: o Rei Pelé. Não imaginava ser o primeiro entre tantos encontros posteriores. Hoje, isso me permitiu concluir que fui atrás de uma conquista e obtive outra, bem diferente. Não consegui para PE uma feira de esportes, mas naquele encontro e outros que se deram, junto aos irmãos Massaini, surgiu a semente do que veio a ser o festival de cinema. Está aqui aquele elo do filme assistido na infância com o festival surgido por uma rara circunstância.

2011. Não foi à toa que o Cine PE decidiu por homenagear o Rei, nos 15 anos de evento. A proporção do descrédito e das caras amarradas, em torno de uma vinda acertada com muita antecedência, só não foi maior que vê-lo feliz e aplaudido de pé, no Cine-teatro Guararapes, por mais de 3 mil pessoas. Foi o maior presente que recebi, justo no dia dos meus 50 anos. Digo isso, também, por conta do meu reconhecimento a quem influiu nos rumos da vida de um professor e economista, que resolveu crer na produção cultural como exemplo de economia. Assim, bem maior do que as dúvidas de quem não apostou na presença do Rei, ou mesmo, no seu próprio engajamento com o cinema, foi-me sentir realizado. E até hoje me pergunto: como foi possível conseguir fazer tudo que foi alcançado em 2011, tendo Pelé como referência? Logo eu, longe de qualquer percepção do que seja o eixo das grandes decisões. Sinto-me um ser realizado. Por essa e outras tantas lutas. Sempre com a presença direta de Sandra e com o apoio dos meus filhos, de outros familiares e amigos.

Nessa minha breve história (o espaço que disponho não me permite tratar de tantos nuances que estiveram por trás dos fatos), a certeza da ausência de Pelé entre nós é uma verdade difícil de ser admitida. Sou agora um súdito em orfandade, justo de uma realeza que pude viver sob os efeitos do encantamento de desportista e, em seguida, do envolvimento que derivou de uma discreta amizade. Uma força emotiva tal que me coloca sob duas situações.

A primeira, de aceitar que a chamada divina seja para lhe dar destaque na “galeria dos gênios imortais”. Isso porque Deus não costuma fazer moldes ou clones de seres tão especiais. Pelé foi único. Gênio.

Em segundo, porque caberá aos historiadores e aos que lidam com os esportes tratarem o contexto da ausência dessa Realeza com um registro simbólico. Caberia ver o futebol como fases distintas: aP e dP. Ou seja, antes e depois de Pelé.

Com todas essas reverências que cabem ao nosso Rei, só agora irei aceitar, de pronto, que Pelé é eterno. Como bom súdito que fui, sou e sempre serei. Razões não me faltam. E para Sandra, minha esposa e parceira, que sempre disse que “Pelé foi pra gente o início de um encontro interminável com o cinema”.

Obrigado, Pelé!

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista e desportista

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