Onde Está Wally? Esconder Protagonismos Afeta a Economia

Na segunda metade dos anos 80, o mundo conheceu um fenômeno de vendas nas livrarias, absolutamente voltado para o público infantil. O ilustrador britânico Martin Handford desenvolveu, a partir de uma série de livros o projeto “Where”s Wally”, que conquistou a simpatia não só daquele público, como dos adultos. Não diferente do resto do mundo, aqui no Brasil, “Onde Está Wally” se transformou em inúmeras edições. De fato, foi um produto literário que esteve onipresente na vida nacional, das livrarias aos lares, passando também por escolas e bibliotecas.

Claro que, por meio de ilustrações e pequenos textos, a proposta literária de Handford é transformar o simpático Wally num protagonista, que precisa ser encontrado em situações de difícil reconhecimento. No geral, no ensejo dos seus passeios, suas viagens ou suas aventuras as ilustrações são evidenciadas por situações onde Wally e seus objetos estão perdidos, na multidão. Enfim, trata-se de um exercício que, na essência de alguma história de passeios, viagens ou aventuras, transporta o leitor para estimular sua memória, através do campo visual.

Julgo que esse referencial de Wally, permite-me exercitar agora algumas extrapolações, com a devida licença dos meus estimados leitores, por conta dos riscos analíticos que posso incorrer. Para isso, parto do princípio de que mirar para protagonismos ocultos, sem que se tenha sequer a possibilidade de procurá-los faz mal para a cena socioeconômica de qualquer país. Isso porque a insegurança e a imprevisibilidade que podem decorrer de tal ocultismo, geram expectativas que não costumam ser tão favoráveis para os agentes sociais e econômicos. A ver alguns episódios, que caibam numa ilustração ao bom estilo do nosso simpático Wally. Antes, porém, nunca é tarde para dizer que, o processo eleitoral plebiscitário que tomou conta do Brasil é nefasto na sua essência. Um fato que se traduz em inseguranças e imprevisibilidades, no que tange à condução da política socioeconômica a partir de 2023.

Direto aos exemplos adjacentes. Não obstante a extensão da impiedosa negligência associada ao combate da pandemia, ações derivadas como ausência de medicamentos e, sobretudo, vacinas na rede SUS são sintomas preocupantes de um descaso, capaz de influir nas expectativas. A desconstrução da ciência, o desleixo com a saúde pública e o desinteresse por informar são pontos basilares. No já ocorrido com as vacinas contra o COVID, não surpreende a queda de cobertura indenizatória em doenças antes controladas. O registro saudoso das campanhas de comunicação foi estupidamente trocado pelo silêncio mórbido. Assim, à moda Wally, cabe a pergunta; onde está Zé Gotinha? Será que para ofício dialético de ideias extremas nosso simpático protagonista está confinado?

Por outro lado, seguindo essa linha do ocultismo, registre-se o recente esforço político, típico de “republiqueta nacional-populista”, diante de uma comunidade internacional desacostumada com diatribes diplomáticas oriundas do Brasil. De fato, houve a triste consagração do nosso acolhimento como integrante “benemérito do clube dos párias mundiais”. Ato pífio, que agrediu não só a imagem e a diplomacia, como a própria legislação eleitoral. Naquele gesto político de pura bravata, também caberia, ao estilo Wally, onde estavam Arthur e Augusto?

Em todas situações aqui colocadas, o duro não está apenas em achar cada um dos nossos Wally. Como a ilustração original dá grandeza à multidão que valoriza o ocultismo do protagonista, por aqui o pior é ver a perplexidade dos agentes sociais e econômicos, estampada na cara de cada um.

 

 

 

 

 

 

Alfredo Bertini – Economista, professor e pesquisador, Ex-Presidente da Fundação Joaquim Nabuco

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