PEQUENOS PASSOS, LONGAS TRAVESSIAS –

Há momentos em que a vida parece nos pedir mais do que temos a oferecer. O esforço não traz o resultado esperado, os planos se desfazem e, no meio do cansaço, nasce uma pergunta silenciosa: ainda vale a pena continuar?

É justamente nessas horas que precisamos ter cuidado com as conclusões que tiramos sobre nós mesmos. Um dia difícil não resume uma existência. Uma derrota não apaga a caminhada. E o fato de ainda não termos chegado aonde desejamos não significa que tudo o que fizemos tenha sido em vão.

Com o passar dos anos, aprendemos que a vida se constrói, quase sempre, em decisões que ninguém aplaude: cumprir uma responsabilidade quando seria mais cômodo fugir dela, reconhecer um erro, retomar um projeto esquecido, pedir ajuda ou escolher a serenidade diante de uma provocação. São gestos discretos, quase invisíveis, mas capazes de mudar o rumo de uma história.

Não escolhemos todas as circunstâncias que nos alcançam. Há perdas que não podemos evitar, injustiças que nos ferem e dificuldades que ultrapassam a nossa vontade. Por isso, seria injusto e até cruel atribuir todo o sofrimento às escolhas de quem sofre. Ainda assim, dentro das possibilidades de cada um, há um espaço de ação que merece ser reconhecido e cuidado com carinho.

Talvez hoje não seja possível resolver tudo. Mas talvez seja possível dar um passo: buscar orientação, cuidar da saúde, resolver uma pendência, retomar uma conversa ou estabelecer um limite necessário. O futuro também se transforma a partir dessas pequenas iniciativas.

Persistir exige discernimento. Há caminhos que precisam ser revistos, métodos que já não funcionam e expectativas que pedem amadurecimento. Mudar de direção, às vezes, é a forma mais sábia de preservar o propósito. Descansar pode devolver a clareza necessária para seguir em frente. E pedir apoio pode tornar possível uma travessia que, sozinhos, nos parecia insuportável.

Também precisamos abandonar a ideia de que toda dor traz, obrigatoriamente, uma lição ou uma recompensa. Algumas experiências deixam marcas profundas e pedem tempo, acolhimento e cuidado. Não precisamos agradecer pelo sofrimento para reconhecer a coragem com que o enfrentamos.

Confiar no processo só ganha sentido quando participamos dele: aprendendo, corrigindo escolhas e fazendo o que está ao nosso alcance. A esperança se fortalece quando encontra uma atitude concreta, por menor que seja.

Antes de encerrar o dia, talvez valha a pena uma reflexão sincera: qual escolha de hoje merece ser repetida amanhã? O que precisa mudar? Que passo tenho adiado, mesmo sabendo que ele pode me fazer bem?

Essas perguntas não exigem uma vida perfeita. Exigem apenas disposição para olhar a própria caminhada com honestidade e um pouco de generosidade.

Sigamos sonhando, mas dando aos sonhos um lugar em nossa rotina. Com paciência para respeitar o tempo, humildade para aprender e coragem para recomeçar quantas vezes forem necessárias.

Afinal, o amanhã começa a tomar forma na maneira como cuidamos da vida hoje.

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado, procurador aposentado e vereador em São Gonçalo do Amarante/RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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