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Há mais de 16 anos, Walderley César Saldanha tenta trazer para casa um ônibus que comprou do outro lado do continente. O veículo modelo GMC PD-4501 Scenicruiser é um exemplar raro, fabricado nos anos 50, e comprá-lo era um sonho de infância do trabalhador autônomo, que tem 56 anos.
Foram fabricados 1.001 ônibus do modelo. Em 2009, Walderley encontrou e comprou um deles no Canadá. Mas em 2026 ele ainda enfrenta problemas logísticos e burocráticos para trazê-lo ao Brasil. Hoje o ônibus está no Porto de Veracruz, no México.
O ônibus Scenicruiser foi fabricado entre os anos de 1954 e 1956 pela General Motors (GM) para a Greyhound Lines, Inc. – operadora americana de serviços de ônibus interurbanos – e foi usado pela companhia até meados da década de 1970.
O objetivo de Walderley é fazer com que o veículo, apelidado de Spectrum, chegue ao Porto de Zaraté em Buenos Aires, na Argentina. Depois, o plano é dirigir o ônibus até Maringá, no norte do Paraná, onde mora com a esposa Valéria Aparecida Varize Saldanha, de 50 anos.
A paixão pelo ônibus nasceu quando Walderley tinha 12 anos. Ele ganhou uma miniatura do modelo e, desde então, decidiu que teria um exemplar original quando fosse adulto. Entenda mais abaixo.
Na época, ele nem imaginava que o modelo realmente existia. Walderley também não sabia que encontrar o tão sonhado ônibus seria um de seus menores desafios.
Foram diversas viagens para o exterior e incontáveis quilômetros percorridos por terra, água e mar. Também houve problemas mecânicos e financeiros. Segundo ele, os picos de esperança e decepção muitas vezes aconteciam no mesmo dia.
No entanto, em meio às diversas tentativas de trazer o Spectrum para o Brasil, Walderley e Valéria fizeram vários amigos, tanto pessoalmente como pela internet. Isso porque os dois decidiram compartilhar os detalhes da jornada pelas redes sociais e atualmente somam 50 mil seguidores.
Eles conseguiram chegar ao porto do México em meados de novembro de 2025. Walderley relembra que precisou passar 15 dias acampado no porto, dormindo no ônibus, enquanto aguardava o navio atracar.
Apesar de o veículo ter sido autorizado a passar por três países e diversas aduanas, as autoridades portuárias mexicanas identificaram uma inconsistência no número de série do ônibus. Segundo ele, o problema era exclusivo dos documentos, uma vez que o veículo estava com a situação regularizada.
“Tem 16 anos de história dentro daquele ônibus, sabe? Peça que eu comprei, porque, como é um ônibus raro, tem toda a história. Então tudo que eu achava do ônibus, eu comprava para levar, para restaurar aqui no Brasil, por causa da dificuldade de peças. Tá tudo lá [no ônibus]. Inclusive roupas, documentos, calçados, ferramentas”, contou.
Por conta da situação, o Spectrum não pode ser retirado do porto e o casal teve que retornar ao Brasil. Juntos, eles tentam encontrar um advogado para solucionar o problema e trazer o ônibus para casa.
O g1 entrou em contato com a Embaixada do Brasil no México, que informou que não interfere nem divulga informações sobre transações comerciais privadas de cidadãos brasileiros no exterior.
A miniatura do ônibus nunca foi só um brinquedo para Walderley. Quando criança, ao contrário de muitos garotos da idade dele, que sonhavam com Ferraris e outros carros potentes, ele sonhava em ter o GMC PD-4501 Scenicruiser.
O sonho começou a se tornar realidade quando, em 2009, um amigo dele viajou ao Alaska e encontrou um exemplar do ônibus na beira de uma rodovia no deserto de British Columbia, no Canadá.
“Ele tirou foto e quando ele retornou falou para mim: ‘Olha, o seu sonho existe, o teu ônibus existe’. Aí a gente conseguiu entrar em contato com o dono, que era um imigrante italiano, e comprei dele. […] Esse ônibus era de uma banda na Flórida, aí esse senhor comprou dessa banda que se chamava Spectrum, por isso o nome dele é esse”, contou.
Walderley só pôde ver o ônibus de perto em 2012, quando conseguiu o visto canadense e foi com quatro amigos para o Canadá. Mesmo com o pagamento finalizado, ele não pôde tirar o ônibus do lugar.
Ele conta que chegou a voltar três vezes ao Canadá, sendo a última em 2019, mas devido à alta do dólar na época, os custos com as taxas de regularização e liberação ficaram muito altos. Ele só viu o ônibus de novo quatro anos depois.
Quando tudo parecia perdido…
Durante a pandemia da Covid-19, Walderley e Valéria enfrentaram quadros graves da doença, ficando internados por mais de 20 dias. Os dois se recuperaram, mas pouco tempo depois ele adoeceu novamente, sendo diagnosticado com dengue hemorrágica.
Ali, os dois acreditavam que não teriam mais condições de trazer o Spectrum ao Brasil. Contudo, vendo o marido doente, Valéria conta que sentiu que o sonho de Walderley não poderia acabar ali.
“Eu falei para ele assim: “Se você conseguiu sobreviver a essas duas doenças que você teve tão em seguida, eu acho que Deus tem um propósito para você””, contou Valéria.
“Ela, me apoiou e falou: ‘Ó, teu sonho é buscar o ônibus, vamos dar um jeito e vamos buscá-lo’. Mesmo sem muito dinheiro, a gente resolveu usar uma Kombi que tínhamos. Com ajuda de amigos, nós restauramos ela e, em 30 dias, fomos de Maringá até Cartagena das Índias, na Colômbia e, depois, até a Flórida, nos Estados Unidos, onde fomos recepcionados por amigos”, lembrou Walderley.
Com a kombi, o casal chegou até New Bedford, em Massachusetts, e ficou hospedado na casa de outros amigos. Lá, eles deixaram o veículo e pegaram um avião até o Canadá.
… tudo recomeçou
O reencontro com o Spectrum aconteceu em 2023. Mas, para a tristeza de Walderley, as condições dele estavam ainda piores do que ele imaginava. Depois de mais de 40 anos parado, havia muitos problemas mecânicos que o impediam de pegar a estrada.
Walderley decidiu consertar o ônibus por conta própria. Nem mesmo as temperaturas abaixo de zero do inverno rigoroso canadense, fizeram com que ele desistisse de ver o Spectrum rodando.
“Eu conversava com ele [ônibus] e a minha esposa falava: ‘Você tá ficando louco?’ “, contou Walderley, rindo.
Ele compartilhou a rotina com o ônibus nas redes sociais e acabou recebendo dicas e ajuda de amigos de várias partes do Brasil. Quando o dinheiro começou a acabar, Walderley vendeu a Kombi e comprou peças e combustível para o ônibus.
Depois de muito trabalho, ele conseguiu ligar o Spectrum e dirigiu até o deserto da Califórnia. Lá, eles guardaram o ônibus na chácara de um conhecido e voltaram após um ano e quatro meses para buscá-lo.
“Quando nós chegamos no deserto, outra decepção. Roubaram tudo do ônibus, roubaram o para-choque, saquearam tudo que tinha dentro: peças, pneus…”, contou Walderley.
Parecia que tudo estava perdido de novo, mas ele não desistiu. A 700 km dali, no estado do Oregon, encontram um ferro-velho de ônibus e tiveram que gastar cerca de 700 dólares para comprar novamente as peças.
“Eu nunca visei o lado financeiro. Eu quero realizar o meu sonho e todo sonho tem o seu custo”, avalia Walderley.
Ajudados por apoiadores que sequer os conheciam, o casal conseguiu arrecadar dinheiro por meio de um vaquinha online. Com as doações, o ônibus foi consertado e chegou até o México em novembro de 2025.
No meio do caminho, Walderley e Valéria enfrentaram mais um perrengue. Antes de chegar ao porto, o ônibus perdeu o freio, teve que entrar em uma área de escape e foi “guinchado” com a ajuda de caminhoneiros mexicanos.
“Eu falei assim: ‘Olha, segura aí que tá sem freio e eu não sei o que vou fazer’. Era uma uma serra muito longa, mas quando eu vi aquela área de escape, eu entrei. O ônibus ficou quase pela metade de pedra. Ela tranquilamente filmou tudo e dando risada. De tantas coisas que já tinham acontecido, essa era a mais tranquila”, contou.
Quando parecia que o sonho estava prestes a ser realizado, o problema com a documentação no porto mexicano fez com que o ônibus parasse novamente, ainda no meio do caminho para casa. Mesmo assim, o casal ainda nutre esperança de um dia ter o Spectrum no Brasil.
“A gente fica decepcionado. Eu já chorei, já gritei, mas não adianta, né? Então a gente tá catando os cacos aí para ver o que a gente vai decidir. A esperança é a última que morre […] eu não vou desistir do meu sonho”, finaliza Walderley.