OS ZEROS DO ENEM –

“A principal função da raiz é se enterrar”, “As aves tem na boca um dente chamado bico”, “Não preserve apenas o meio ambiente, mas sim todo ele”, “A Aids é transmitida pelo mosquito Aides Egpsio”, “Vamos deixar de sermos egoístas e pensarmos um pouco mais em nós”. Essas, não são frases ouvidas em programas humorísticos de televisão, mas extraídas de textos de provas de redação do Exame Nacional do Ensino Médio-ENEM.

Não dá para conter o riso diante de tamanha estupidez, decorrência da completa falta de conhecimento gerado pela escassez de leitura. Trata-se do fruto da criatividade de alunos, recém-saídos do ensino médio, que tentam ingressar na universidade mediante o ENEM. É doloroso constatar tais absurdos, porque são agressões cometidas contra a integridade daquilo que uma nação tem de mais expressivo: o idioma.

O mesmo cenário de ignorância se repete em outras áreas: “Fazem dez anos”, “Para mim escolher”, “Esse assunto fica entre eu e você”, “Aonde você estava?”, “Há muito tempo atrás”, “Nós, enquanto sociedade…”. Ataques como esses são escutadas no cotidiano do nosso linguajar. O pior é quando partem de comunicadores do rádio e da televisão, em apresentações jornalísticas. Arrebentam os tímpanos de quem possui um mínimo de conhecimento do português.

Existe uma linha de “educadores” defendendo que deveríamos escrever como falamos. “Taí” uma ideia “porreta”! Esqueçamos tudo o que aprendemos (aprendemos?) na escola e elejamos como idioma oficial a linguagem hieroglífica praticada nas redes sociais, que está rompendo com regras tradicionais da norma padrão: “Ei pow, ramo dá um role hj? Pegá umas mina” (Ei rapaz, vamos sair para passear hoje? Ficar com umas garotas) ou “Qnd vc vai p/ d flr isu?” (Quando você vai parar de falar isso?).

Trata-se do modelo de conversação, via internet, utilizando gírias e palavras novas, numa amostragem do alto nível de alienação entre crianças e adolescentes. No início de minha vida escolar cansei de ouvir professores repetir a mesma ladainha: “A leitura é a base da educação, pois além de aumentar seu conhecimento, fortalece a habilidade em gramática e alarga o vocabulário”.

Portanto, o estardalhaço causado pela divulgação do resultado do exame do ENEM-2017, onde mais de 300 mil estudantes conseguiram um significativo zero na prova de redação, não deveria apavorar ninguém. Foi uma constatação previamente anunciada, por conta do descaso com o ensino médio no país.

Possuímos 6.062 bibliotecas públicas para 210 milhões de habitantes. Uma para cada 34,6 mil brasileiros. Todas ao léu, pois não exercitamos o costume de visitá-las. A França, proporcionalmente, possui 13 vezes mais bibliotecas por habitante do que o Brasil. Na Argentina existe uma biblioteca para cada 17 mil pessoas.

Esqueçamos tudo e tentemos dormir embalados por afirmativas inéditas como estas: “Os portugueses, depois que descobriram Fernandes de Noronha, assinaram o Tratado de Tortas Ilhas”; “Lenine e Stalone eram grandes figuras do comunismo na Rússia”; “A alimentação é o meio de digerirmos o corpo” e “O povo quer coisa simples, sem muita luxúria”. E eu inocente quanto a tudo isso!

 

José Narcelio Marques Sousa – É engenheiro civil – [email protected]

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *