OS ANEIS QUE NOS UNEM –

Em recente visita a Cuiabá, capital de Mato Grosso, fui conhecer o belo Parque das Águas. Caminhava sem pressa, atento ao que a natureza oferecia. Encantei-me com as capivaras, com pássaros de diferentes cores e cantos e até com jacarés que, silenciosos, pareciam indiferentes ao movimento ao redor.

Entretanto, entre tantas manifestações de vida, foi um simples tronco cortado transversalmente que me fez parar. Aproximei-me. Da medula escorria a seiva. Ao redor, o dele até a casca, o cerne, onde surgiam os anéis que os anos foram formando, um após outro, registrando o passar do tempo e as diferentes condições enfrentadas ao longo de sua existência.

Pensei, então, na família. Também ela se constrói a partir de um centro comum, onde permanecem valores, ensinamentos e lembranças daqueles que chegaram primeiro. Com o passar dos anos, novas gerações se incorporam à história, ampliando-a sem apagar o que existiu antes.

Chegam os filhos. Depois, os netos. Mais tarde, outros virão.  Alguns períodos são tranquilos e felizes. Outros trazem doenças, perdas, distâncias e despedidas. Talvez esteja aí o segredo das famílias fortes: não a ausência de dificuldades, mas a capacidade de enfrentá-las juntas.

Continuei caminhando pelo Parque das Águas. As capivaras continuavam tranquilas, os pássaros seguiam seus voos e os jacarés repousavam à margem. Mas levei comigo a imagem daquele tronco. Percebi que seus anéis não contavam apenas os anos. Contavam tudo o que fora necessário vencer para chegar até ali.

E talvez seja assim também conosco. O tempo acrescenta anos, traz novos rostos à mesa e, inevitavelmente, leva alguns que gostaríamos de conservar para sempre. Mas o amor vivido em família possui uma estranha maneira de desafiar as ausências: transforma convivência em lembrança e lembrança em presença.

Um dia, nós também seremos apenas memória nas histórias contadas pelos que vierem depois. Que possam, então, olhar para trás e reconhecer em nós um dos anéis que ajudaram a fortalecer sua história. Porque a maior herança de uma família não está naquilo que deixa. Está no amor que consegue fazer permanecer.

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

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