O OFÍCIO DE SOLTAR –

Existem casas que nunca aprendem a ficar vazias, mesmo quando o silêncio finalmente chega, permanece um ruído de fundo, o som de portas que já não batem, de pratos que não precisam mais ser servidos nem lavados, de nomes chamados sem querer no corredor. Durante muito tempo acreditou-se que educar era segurar… a mão na rua, o choro, o mundo para que não entrasse tão cedo. Poucos avisam que a segunda parte da tarefa é exatamente o oposto.

“Só se vive uma vez” tornou-se frase de camiseta, legenda de viagem, só que, para muitos, ela carrega outro peso, se é que me entendem, pois, só se vive uma vez, e boa parte dessa vida é gasta tentando ser abrigo perfeito um teto sem goteiras. E, quando se consegue, às vezes ninguém quer sair debaixo dele, os filhos crescem, o corpo estica, a voz muda, os documentos ganham novas cores, os boletos chegam com outros nomes, ainda assim, os olhos insistem em editar o tempo: enxergam joelhos ralados, cadernos de super-herói, medos do escuro que só passavam com alguém sentado à beira da cama. É o truque da memória afetiva, cruel e doce ao mesmo tempo.

Eu sei, ninguém deseja ser carcereiro, no entanto, existem prisões invisíveis, erguidas com jantares quentes na hora certa, roupas dobradas sobre a cama, soluções oferecidas antes mesmo que o problema seja formulado, e aí temos a tendência de confundir cuidado com competência, e, fatalmente, imaginamos que amar demais parece virtude, cuidado, pode ser armadilha. A teoria ensina sobre autonomia, quedas necessárias, limites… na prática, porém, muitas vezes se rende ao olhar que diz “sim” quando a boca tenta dizer “não”.

É difícil perceber adultos ainda aguardando que outros decidam por eles, mais doído ainda é reconhecer nessa espera a caligrafia de quem os formou (nessa eu me incluo). É fácil culpar o mundo lá fora, difícil, caro, violento, homofóbico, porém, complicado é olhar para dentro e perceber que a cadeira ocupada há tempo demais também contribuiu para a dependência, o cordão umbilical não se corta apenas uma vez, ele se rompe em fatias diárias: na primeira vez que não se leva à escola, que não se corrige a lição, que se permite voltar tarde sem mensagem. Muitos falham nessa cirurgia cotidiana, adiando por amor, por medo, por cansaço. E surge a pergunta: quem somos quando já não somos necessários a cada minuto?

Qual o tamanho de quem construiu uma identidade inteira em torno de ser indispensável e, de repente, vê a obra pronta sem que o outro se mude para dentro dela? Há quem ensaie discursos firmes, limites claros, lições sobre consequência, entretanto, na hora, a voz sai mansa, a mão serve o café. Talvez seja fraqueza, quem sabe, seja apenas um amor que não aprendeu a gramática do limite, um amor analfabeto em despedidas, que ainda não compreendeu que criar não é impedir quedas, é garantir que, ao cair, o outro saiba que a queda é dele, mas que o chão continua existindo, que a casa não é o único chão possível.

Pois bem, acredito que em muitas cozinhas, neste instante, alguém olha para um filho adulto e vê, ao mesmo tempo, o menino de doze anos que ainda pede autorização para ir ao shopping, e sente culpa por sentir culpa. Talvez amar demais seja, em alguns casos, uma forma elegante de não confiar… de não confiar que o outro se vire, que aprenda, que sangre e estanque sozinho. De não crer que sobreviveremos à ausência. O ofício de soltar é aprender a desocupar espaços, a deixar a geladeira mais vazia, a suportar portas fechadas sem bater, a aceitar que o cordão não se rompe de todo, apenas muda de material; de carne para lembrança, de necessidade para saudade, de controle para torcida.

E quando compreendermos, captaremos a verdadeira beleza da criação, e se for para torcer, que seja de longe, com elegância. Com a leveza de quem finalmente entende que a maior prova de um bom trabalho é não ser mais tão necessário assim. No fundo, é isso que toda mãe e todo educador desejam, mesmo sem coragem de dizer em voz alta: que eles vão. Que vão bem, mas que vão!

Seria isso a síndrome do ninho vazio?

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]

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