O NOVO ASSASSINATO –

Entrou em cartaz nos cinemas do país, faz apenas alguns dias, um “novo” filme “Assassinato no Expresso do Oriente” (“Murder on the Orient Express”), sob a direção (e também estrelado por) de Kenneth Branagh (1960-). Digo um “novo” porque o romance homônimo da minha amiga Agatha Christie (1890-1976), de 1934, no qual se baseia o filme, já foi levado à tela, grande ou pequena, algumas outras vezes.

Bom, quem gosta de romance policial certamente já leu “Assassinato no Expresso do Oriente”, que é um dos maiores sucessos da Rainha do Crime. E quem gosta de cinema muito provavelmente já assistiu à superprodução de 1974, dirigida por Sidney Lumet (1924-2011), que, com sucesso de crítica e público, adaptou o crime do Orient Express para a tela grande. Para quem não sabe ou recorda, o filme de 1974, como poucas vezes visto na história do cinema, contou com estrelas como Albert Finney (no papel de Hercule Poirot), Anthony Perkins, Ingrid Bergman, Jacqueline Bisset, John Gielgud, Lauren Bacall, Martin Balsam, Michael York, Richard Widmark, Sean Connery e Vanessa Redgrave. Foi indicado ao Oscar em 6 categorias; Ingrid Bergman acabou levando a estatueta como melhor atriz coadjuvante.

O enredo do novo filme “Assassinato no Expresso do Oriente” é basicamente o mesmo daquele do livro e das suas adaptações anteriores para o cinema e a televisão (cujo exemplo mais famoso, neste caso, é a produção do canal de TV britânico ITV, como episódio da série “Poirot”, tendo David Suchet no papel principal). Em resumo, Hercule Poirot está a bordo do Expresso do Oriente. Devido a uma nevasca, durante a noite, o trem para no meio dos Balcans. Na manhã seguinte, um dos passageiros, o Senhor Ratchett (na verdade o fugitivo Cassetti), é encontrado morto. Foi esfaqueado 12 vezes. Poirot é encarregado de investigar o caso. Embora o crime tenha sido premeditado para parecer realizado por alguém de fora, o criminoso está certamente entre os passageiros. Os ferimentos no cadáver, embora feitos com uma só faca, não combinam. O crime no Expresso do Oriente está relacionado com o sequestro e assassinato, nos EUA, de uma garotinha pelo tal Ratchett/Cassetti. Todos os passageiros parecem estar mentindo. Todos são suspeitos. O resto, incluindo as interessantíssimas questões jusfilosóficas interligadas ao final da trama… eu não devo contar.

Mas embora não deva contar o final do novo “Assassinato no Expresso do Oriente”, eu posso, com certeza, fazer alguns observações críticas – na dupla qualidade de amante de Agatha Christie e de cinéfilo amador – sobre o dito cujo, o qual, satisfeitíssimo (não obstante a turma “cansada” que me acompanhava), já fui assistir.

Antes de mais nada, o elenco do filme de 2017 é muito bom. O próprio diretor Kenneth Branagh, também ator shakespeariano, faz o papel de Hercule Poirot. Ainda estão lá os conhecidíssimos Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Judi Dench, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley e por aí vai. Mas, na minha opinião, ele (o elenco) fica ainda bem aquém daquele do filme de 1974, no qual o diretor Sidney Lumet juntou a constelação de atores acima discriminada. Bom, vocês tirem as suas próprias conclusões.

Em segundo lugar, acho que o novo “Assassinato” focou demais na figura de Poirot. Por exemplo, eu mesmo não entendi e achei deslocadas no filme as alusões a um amor antigo do pitoresco detetive belga. Não me recordo desse sentimentalismo no livro da Rainha do Crime. Tentei até consultar uma edição de bolso de “Murder on the Orient Express” que possuo (publicada pela Fontana/Collins, 1975). Não consegui, absorto pelas lembranças daqueles primeiros e frios meses de 2012, já mais para o fim do meu tempo de doutorado em Londres, em que, segundo anotações que fiz na sua folha de rosto, “devorei” aquele livrinho. Mas talvez esse “romantismo” – falo do filme, não das minhas lembranças, que nada têm de românticas – seja uma forma de agradar às plateias de hoje. De minha parte, acho que não foi uma boa ideia.

Por óbvio, esse foco demasiado em Poirot fez com que não fosse dada a devida atenção às demais personagens/passageiros do trem, tão interessantes para a trama toda. Até que é dada alguma atenção à personagem Ratchett/Cassetti, o vilão assassinado da trama, agora interpretado por Johnny Depp. O mesmo ocorre com a Senhora Hubbard, interpretada pela ainda belíssima Michelle Pfeiffer (nunca esquecerei a beleza dela em “Ladyhawke – O Feitiço de Áquila”, de 1985). Mas para por aí.

Por fim, a meu ver, o grande problema do filme é que a trama toda, se comparada ao livro, passa rápido demais. É claro que um livro é um livro, e um filme é um filme, como diria aquele grande filósofo das redes sociais. E o filme de 2017 não precisava – nem muito menos conseguiria, se fosse tentado – ser inteiramente fiel ao livro de 1934. Liberdades são tomadas, como, por exemplo, aquela primeira cena do filme em Jerusalém, no muro das lamentações, quando, no livro, a estória começa na (hoje) triste Alepo, na Síria, para depois chegarmos à maravilhosa Istambul, na Turquia. Mas o fato é que o clássico filme de 1974 consegue ser mais fiel àquela lânguida atmosfera de mistério, tão essencial para as estórias de suspense, do livro da minha amiga Agatha Christie. Muito embora eu também reconheça que, no meu caso em particular, como no de muitos outros amantes dos romances policiais, essa dose necessária de mistério seja irremediavelmente prejudicada pelo conhecimento prévio do final da trama.

De toda sorte, acho que vale muito a pena ir ao cinema ver o “Assassinato no Expresso do Oriente” de Kenneth Branagh. Muitos já foram mundo afora. O filme já arrecadou algumas centenas de milhões de dólares, li em algum lugar na Internet, já superando folgadamente o que foi gasto para produzi-lo. Aliás, as críticas, em geral, são muito boas.

Eu fui. E, não obstante as observações que fiz acima, gostei. Bastante, por sinal.

 

 

Marcelo Alves Dias de Souza – Procurador Regional da República, Doutor em Direito (PhD in Law) pelo King’s College London – KCL e Mestre em Direito pela PUC/SP

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