O HOMEM DA COBRA –

Na antiga Feira Municipal de Nova-Cruz (RN), que, décadas atrás, acontecia na  Rua Grande, às segundas-feiras,  entre várias figuras e situações hilárias, havia o “homem da cobra”. O apelido não era porque ele falasse muito, como se dizia que falava o homem da “cobra” ou da cobrança, de antigamente, mas, simplesmente, porque ele chegava à feira portando uma mala, que era o cativeiro de uma cobra. Essa cobra era o seu ganha-pão. Dela ele tirava o seu sustento e o da sua família. Tratava-se de uma Jiboia, de pouco mais de um metro de comprimento.

Ao chegar à feira, ele tirava a Jiboia da mala, exibia aos feirantes, falando alto, e chamando a atenção de todos para a sua coragem, diante daquela serpente perigosa. Enrolava a cobra no pescoço, segurando-a pelos dois extremos, a cabeça e o rabo. Depois, enrolava a cobra nas pernas, e dava um verdadeiro “show” circense.

Enquanto isso, o seu ajudante passava o chapéu e recebia alguns trocados da plateia, que se deliciava com o perigo que o homem da cobra corria. Não se sabe se a plateia torcia pela cobra ou pelo seu dono. A exibição da Jiboia era simplesmente um sucesso e causava grande suspense à plateia.

Para comover e provocar a caridade pública, o homem da cobra contava, em voz alta, o seu infortúnio. Dizia ter perdido a esposa, de parto, tendo em casa seis filhos menores para alimentar.  Os trocados recebidos com a exibição da cobra ajudavam na sobrevivência de sua família.
Essa narrativa emocionava os feirantes, que procuravam ajudá-lo com algum dinheiro.

A Jiboia era asquerosa e causava medo. O local onde o seu dono a exibia ficava distante do armazém do nosso pai, Francisco Bezerra Souto.

Mesmo não sendo venenosa, a Jiboia é uma serpente perigosa, por matar por constrição, envolvendo e esmagando sua presa. Mata por asfixia ou sufocamento. Alimenta-se de pequenos roedores, como camundongos e ratazanas jovens. Quando maiores, a Jiboia pode ser alimentada de coelhos, lebres, ratazanas adultas e aves (frangos). Facilmente, pode ser encontrada no Brasil e pode ser criada em cativeiro.

Os trocados recebidos da plateia garantiam ao homem da cobra a compra de mantimentos para sua família. No final da feira, o chapéu estava cheio de “trocados”, e ele saía com o seu ajudante em direção a um caminhão velho, onde o motorista os aguardava.

Num certo dia, durante a exibição, a cobra escapuliu das mãos do seu dono e fugiu. Deu-se, então, o pânico entre os curiosos, que assistiam àquele espetáculo. O homem da cobra, que parecia um artista de circo, ficou desesperado.

Como nessas horas, sempre aparece um “salvador da pátria”, um feirante apontou o lado para onde a cobra tinha se encaminhado. O dono, seu ajudante e outros homens, mais que depressa, correram ao seu encalço.
Finalmente, viram quando a cobra entrou no quintal da nossa residência, onde só se encontrava Carmelita, a nossa fiel escudeira, que, na cozinha, preparava o nosso jantar.
Fora Carmelita, estávamos todos no Armazém, atendendo no balcão.
Sozinha em casa, ao ouvir o alvoroço dos homens na calçada, querendo entrar no nosso quintal para pegar a cobra, Carmelita entrou em pânico e teve um chilique, precisando ser socorrida logo depois.

Quando a notícia chegou ao armazém do nosso pai, a cobra já havia sido capturada pelo seu dono, que não teve mais condições de voltar à feira.

O espetáculo do homem da cobra, na feira de Nova-Cruz, terminou aí…

 

 

 

Violante Pimentel – Escritora

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