O CARA DA CAIXA DE SOM –
Gosto da rotina. De ter um horário para comer e para sair. De ter um caminho frequente. De comer determinada comida em um certo restaurante. Rotina.
Nessa rotina de ir e vir tem figuras que vejo com frequência. Seja o garçom da doceria que gosto de ir, seja o cara que anda com o cachorro levando uma mochilinha do sharkboy nas costas.
Era assim também com o Cara da caixa de som no túnel que leva à UFRN.
Quase todos os dias ele estava ali. Uma camiseta de propaganda de uma rede de academia. Uma caixa de som tocando músicas com gostos diversos. Eu passava, buzinava e acenava para ele. O meu filho revirava os olhos para mim, pois achava “desnecessária” a minha interação. Não me importava.
Nos últimos tempos ele começou a “faltar” ao “nosso encontro”. Isso estava me incomodando. Na minha cabeça aquele ritual significava um acordo entre nós: ele lá, curtindo sua música, e eu acenando. Cadê minha rotina? Mesmo em dias chuvosos ele estava ali. E agora?
Então, nessa semana recebi mensagem de nosso caçula: o cara morreu.
Que cara?, pergunto assustada. O Cara da caixa de som!, ele me responde. O motorista do Uber ouviu do passageiro anterior e contou a ele, que me contou e eu contei a Flavinho, que sabia do meu carinho pelo “Cara”, e a Eustinha, que também curtia encontrá-lo em seu caminho.
Fiquei arrasada.
Um luto talvez não reconhecido pelos demais.
Um luto…
Hoje passei por lá e senti um vazio no coração, um embrulho no estômago. Fiz uma oração e continuei a conversa com o caçula.
Segui pensando nele.
No caminho vi o cara com o cachorro de mochilinha de sharkboy. Vi as duas loiras que correm enquanto conversam. Vi o senhor que caminha sem camisa enquanto balança os braços.
Queria descer do carro e abraçar cada um deles. Nem imaginam como fazem parte da minha rotina, da minha vida.
Sou grata por eles.
E quanto ao Cara da caixa de som… sinto um vazio preenchido por saudade.
Descanse em paz!
Bárbara Seabra – Autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento” e Escritora
