O CAÇADOR DE PIUBAS –
A lua acabara de adormecer, e o dia ensaiava seus primeiros passos quando eu retornava do exercício diário. A pouco mais de trezentos metros de casa, avistei uma jovem senhora caminhando à minha frente.
Em uma das mãos, a coleira do seu animal de estimação; na outra, um cigarro que procurava os lábios para as últimas tragadas. O cão seguia obediente. O cigarro agonizava entre os dedos. Veio a derradeira tragada. Num gesto rápido, quase automático, ela lançou a ponta ainda fumegante na sarjeta e continuou seu caminho.
Foi então que meus olhos começaram a procurar pelo chão. Transformei-me num improvável caçador de “piubas”. Elas estavam por toda parte: no meio-fio, nas calçadas, entre folhas, junto às árvores, no jardim de um hotel. Passei a contá-las. Dez. Cinquenta. Cem…
Ao chegar em casa, eram cento e noventa e três, em pouco mais de trezentos metros e apenas de um lado da rua. A quantidade me fez pensar. Parei. Não diante do número, mas do que ele dizia.
Vivemos em um tempo de extraordinários avanços. carregamos computadores no bolso, conversamos com máquinas, lançamos naves ao espaço e desvendamos, a cada dia, novos mistérios da vida. E nós? Nós ainda jogamos a ponta do cigarro no chão. Há alguma coisa de profundamente irônica nessa imagem.
Cada “piuba” parecia contar duas histórias: a da cidade que sujamos e a do corpo que ferimos. Antes de atingir a sarjeta, aquela pequena ponta já havia deixado suas marcas em quem a segurava.
Talvez esteja aí a ironia: o homem alcançou as estrelas, mas ainda tropeça na própria sujeira, logo nós imagem e semelhança de Deus, que construímos templos, pontes, aviões e foguetes. Dominamos oceanos, atravessamos montanhas e interrogamos o universo.
Mas ainda precisamos aprender a dominar um gesto de dois dedos. Naquela manhã, saí para exercitar o corpo e voltei exercitando o pensamento. A lua já havia adormecido, o sol começava a nascer. E me ocorreu que talvez não seja o mundo que precise de um novo dia. Somos nós que ainda precisamos amanhecer.
Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras
