O BRASILEIRO SUASSUNA –

Eu apreciava assistir o escritor paraibano Ariano Suassuna, quando se postava de defensor da nossa língua materna, o português. Ele a considerava a mais bonita, sonora e rica do mundo, vendo-a como o primeiro e mais importante bem cultural do povo brasileiro.

A sua paixão pela terra natal e por seus costumes somente era superada pelo idioma nacional. Daí uma de suas célebres ‘tiradas’: Eu não troco o meu ‘oxente’ pelo ‘ok’ de ninguém. Nas suas aulas-espetáculos ele misturava humor, defesa da cultura popular e reflexões sobre a identidade nacional.

Sobre a política brasileira nutria noção inusitada. Assim a catalogava: …minha visão política tem substrato religioso. Olhando para o futuro, acredito que enquanto houver um desvalido, enquanto perdurar a injustiça com os infortunados de qualquer natureza, teremos que pensar e repensar a história em termos de direita e esquerda.

E mais adiante: …Temos também que olhar para trás e constatar que Herodes e Pilatos eram de direita, enquanto o Cristo e João Batista eram de esquerda. Judas inicialmente era de esquerda. Traiu e passou para o lado de Barrabás, aquele criminoso que, com apoio da direita e do povo por ela enganado, na primeira grande “assembleia geral” da história, ganhou contra Cristo uma eleição decisiva.

Na sua diferenciação entre direita e esquerda ele também era conclusivo: …quem é de esquerda, luta para manter a soberania nacional e é socialista; quem é de direita é entreguista e capitalista. Quem, na visão do social, coloca a ênfase na justiça, é de esquerda. Quem a coloca na eficácia e no lucro, é de direita.

Extremismos de lado, ele cultivava como ninguém a veia satírica. Uma das muitas histórias engraçadas sobre a sua vida é a que trata de uma visita ao Palácio da Redenção, na Paraíba, onde nasceu em 1927, sendo o seu pai, João Urbano Pessoa de Vasconcelos Suassuna, governador do Estado, na época.

Anos depois, ao tentar entrar no dito Palácio, ele foi barrado por um segurança por estar sem gravata. Eis sua resposta irônica ao guarda: A primeira vez que entrei aqui, eu entrei nu e ninguém reclamou. Agora, por causa de uma gravata, vocês reclamam?                                                                                                                          

Eu assisti a uma das suas aulas-espetáculos na nossa universidade federal, onde a plateia não parava de gargalhar ante às seguidas tiradas humorísticas. Anos depois, eu o encontrei com a esposa Zélia, no saguão do Aeroporto de Brasília, retornando para Recife.

Dele me aproximei e lhe pedi um autógrafo. Na oportunidade eu dispunha apenas de um exemplar do meu livro Contos e Crônicas – lançado conjuntamente com meus amigos Armando Negreiros e Maciel Matias, em 2015. Ele de pronto assinou, devolveu-me o exemplar, mas para minha frustação eu o esqueci no avião ao desembarcar em Natal.

Concluo o texto com esta sua manifestação de crença na humanidade: Não sou otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo.

Eis o brasileiro Suassuna!

 

 

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *