Nos últimos tempos, muito se tem falado sobre o fim da escala 6×1 e a adoção da jornada 5×2. O assunto é importante e merece ser debatido com seriedade. Afinal, ninguém pode negar que o trabalhador precisa de tempo para descansar, conviver com a família, cuidar da saúde e desfrutar dos momentos que dão sentido à vida.
Trabalhar é uma necessidade. Viver é uma obrigação ainda maior.
Mas, enquanto acompanho esse debate, não consigo deixar de pensar que talvez estejamos olhando apenas para uma parte do problema.
O brasileiro não está cansado apenas porque trabalha seis dias por semana. Ele está cansado porque trabalha muito, paga muito impostos e, muitas vezes, recebe muito pouco em troca.
Cansado de enfrentar filas intermináveis nos hospitais. Cansado de ver pais e mães aflitos esperando por uma consulta, um exame ou uma cirurgia que nunca chega no tempo necessário. Cansado de sair de casa sem a certeza de que voltará em segurança. Cansado de ver a educação cada vez mais precária, é só verificar o índice do IDEB, enquanto milhões de jovens continuam sem as oportunidades que precisam e merecem.
O trabalhador também se cansa quando passa por estradas esburacadas, quando vê obras inacabadas, quando percebe o desperdício de recursos públicos e, principalmente, quando assiste diariamente aos noticiários relatando novos casos de corrupção, desvios de verbas e má gestão do dinheiro que saiu do bolso da própria população.
E é justamente aí que surge uma pergunta inevitável:
Será que o maior problema do Brasil é apenas a escala de trabalho?
Talvez a verdadeira discussão seja outra.
Talvez devêssemos perguntar por que uma das sociedades mais tributadas do mundo ainda convive com serviços públicos tão distantes da qualidade que a população merece.
Talvez devêssemos discutir com mais profundidade por que o cidadão trabalha tanto para sustentar uma estrutura pública que, muitas vezes, não consegue devolver à sociedade aquilo que ela financia.
Não se trata de ser contra a melhoria das condições de trabalho. Muito pelo contrário. Toda conquista que dignifica a vida do trabalhador deve ser analisada com respeito e responsabilidade.
O que não podemos é acreditar que a solução dos nossos problemas esteja apenas na mudança de uma escala.
Se amanhã todos trabalharem cinco dias por semana, continuaremos precisando de hospitais eficientes, escolas de qualidade, segurança pública eficaz, estradas seguras e gestores comprometidos com o interesse coletivo.
A verdade é que nenhum povo prospera apenas trabalhando menos ou mais. Os países que alcançaram elevados níveis de desenvolvimento foram aqueles que aprenderam a administrar com seriedade os recursos arrecadados da população.
Quando há honestidade, planejamento e responsabilidade, o dinheiro público transforma-se em qualidade de vida. Quando não há, sobra apenas a sensação de que o esforço de milhões de brasileiros está sendo desperdiçado.
Por isso, entendo que o debate sobre a escala 6×1 ou 5×2 é legítimo. Mas ele não pode nos fazer esquecer uma questão muito maior: o Brasil precisa discutir a qualidade da gestão pública com a mesma intensidade com que discute a jornada de trabalho.
Porque o trabalhador não deseja apenas mais um dia de descanso.
Ele deseja viver em um país onde o fruto do seu trabalho seja respeitado.
Um país onde os impostos retornem em serviços dignos.
Um país onde a honestidade seja regra, e não exceção.
Um país onde o cidadão tenha orgulho de contribuir porque percebe, no seu dia a dia, que o seu esforço está ajudando a construir uma sociedade melhor para todos.
Essa talvez seja a reflexão mais importante de todas.
Raimundo Mendes Alves – Advogado, Procurador Aposentado e Vereador em São Gonçalo do Amarante/RN
