O BEM QUE FIZEMOS É A HERANÇA QUE DEIXAMOS NOS CORAÇÕES –

À medida que os anos passam, a gente começa a olhar para a vida de uma maneira diferente. Aquilo que antes parecia tão importante vai perdendo o brilho, enquanto pequenos gestos, lembranças e sentimentos passam a ocupar um lugar cada vez maior dentro de nós.
Hoje, quando olho para trás e penso em tudo o que vivi, nas pessoas que conheci, nas amizades que construí e até nas decepções que enfrentei, percebo que uma das maiores riquezas da vida não está naquilo que conseguimos acumular, mas no bem que tivemos a oportunidade de fazer.

E, se um dia alguém me perguntar qual foi a melhor coisa que fiz durante minha existência, gostaria de poder responder, com a consciência tranquila, que procurei oferecer o melhor de mim às pessoas que cruzaram o meu caminho.

Não porque tenha sido perfeito. Longe disso!
Também errei, também magoei pessoas, também tomei decisões das quais me arrependi. Afinal, sou humano, e viver é também aprender com os próprios erros.
Mas uma coisa sempre procurei preservar: a vontade de fazer o bem, mesmo quando a vida me apresentou razões para agir de maneira diferente.

Quem nunca estendeu a mão a alguém e, mais tarde, recebeu indiferença? Quem nunca ofereceu carinho, amizade ou confiança e acabou experimentando o gosto amargo da ingratidão?
Acredito que todos nós, em algum momento, já passamos por situações assim.

E não adianta fingir que não dói. Dói, sim!
Dói perceber que alguém a quem dedicamos tempo, atenção e carinho não reconheceu nossos esforços. Dói descobrir que uma amizade não era tão verdadeira quanto imaginávamos. Dói quando a pessoa que ajudamos num momento difícil simplesmente se esquece de nós quando já não precisa da nossa presença.

Nessas horas, é comum pensarmos que talvez fosse melhor fechar o coração, deixar de confiar nas pessoas e nunca mais oferecer ajuda a ninguém.

Mas será que devemos permitir que uma decepção transforme nossa maneira de ser?
Será justo deixar de fazer o bem a quem merece apenas porque alguém, no passado, não soube valorizar aquilo que recebeu de nós?
Penso que não.
A ingratidão de alguém não diminui o valor da nossa generosidade. E a maldade que encontramos pelo caminho não precisa destruir a bondade que carregamos no coração.
Isso não significa que devemos aceitar tudo, permitir abusos ou continuar oferecendo nossa presença a quem nos trata com desrespeito.

Com o tempo, também precisamos aprender que dizer não é necessário, que estabelecer limites é uma forma de cuidar de nós mesmos e que nem todas as pessoas merecem continuar ocupando o mesmo espaço em nossa vida.

Podemos nos afastar sem desejar o mal. Podemos perdoar sem necessariamente restabelecer a confiança. Podemos reconhecer que alguém nos decepcionou sem transformar essa experiência numa razão para desconfiar de todo mundo.

A vida vai nos ensinando, muitas vezes por caminhos dolorosos, que não temos controle sobre a maneira como os outros agem, mas podemos escolher a maneira como respondemos às suas atitudes.

E talvez uma das maiores demonstrações de maturidade seja justamente esta: não permitir que aquilo que nos feriu determine a pessoa que nos tornaremos.

Hoje, compreendo que muitas das coisas mais importantes que fazemos não recebem aplausos, não aparecem nas fotografias e dificilmente serão lembradas por todos.

Às vezes, o que realmente fez diferença na vida de alguém foi uma conversa que tivemos num momento de aflição, uma palavra de incentivo quando tudo parecia perdido, uma ajuda oferecida sem que ninguém soubesse ou simplesmente o fato de termos permanecido ao lado de uma pessoa quando ela mais precisava.

Pode ser que, para nós, aquele gesto tenha parecido pequeno. Mas, para quem o recebeu, talvez tenha significado muito mais do que imaginamos.

E é por isso que acredito que fazer o bem nunca deveria ser apenas uma troca, uma espécie de investimento do qual esperamos receber reconhecimento, favores ou gratidão.

É claro que todos gostamos de ser reconhecidos. Um simples obrigado aquece o coração. Mas nem sempre ele virá.

E, quando não vier, que isso não apague a beleza daquilo que fizemos com sinceridade.
Afinal, o tempo passa, os caminhos se modificam, algumas pessoas chegam, outras partem, e nós também vamos mudando. Um dia, tudo aquilo que hoje parece tão urgente será apenas uma lembrança.

Talvez, quando chegarmos ao fim da nossa caminhada, não nos recordemos de todos os bens que possuímos, dos títulos que recebemos ou das disputas que vencemos.

Mas certamente haverá rostos, abraços, conversas e momentos que continuarão vivos dentro de nós.

E, quem sabe, em algum lugar, alguém também estará se lembrando de uma palavra nossa, de uma ajuda que oferecemos ou de um gesto de carinho que fizemos sem imaginar a importância que teria.

É essa lembrança que desejo deixar.
Não a de um homem que nunca errou, que nunca se decepcionou ou que sempre encontrou reconhecimento pelo que fez.

Mas a de alguém que, apesar das dificuldades, procurou viver com dignidade, reconhecer os próprios erros, respeitar as pessoas e conservar a sensibilidade de estender a mão quando podia ajudar.

Porque, no fim das contas, não quero que as decepções que vivi sejam maiores do que o amor que fui capaz de oferecer.
Quero continuar acreditando nas pessoas, mas sem perder a prudência. Quero continuar fazendo o bem, mas sem esquecer de cuidar de mim. Quero aprender com as experiências dolorosas, sem permitir que elas roubem a ternura que ainda existe no meu coração.

E, se um dia me perguntarem o que de mais importante fiz nesta vida, espero poder responder, com a serenidade de quem viveu, aprendeu, caiu e se levantou:
“Fiz o que pude, com aquilo que tinha e com o coração que Deus me deu. Nem sempre acertei, nem sempre fui compreendido, mas procurei deixar um pouco de bondade por onde passei.”

Porque a vida não será lembrada apenas pelo que conquistamos, mas também pelo amor que oferecemos, pelas mãos que estendemos e pelas marcas de carinho que deixamos no coração de quem cruzou o nosso caminho.

E, se ao partir eu deixar saudade em vez de mágoa, gratidão em vez de ressentimento e boas lembranças em vez de feridas, terei encontrado uma das mais belas razões para dizer que valeu a pena viver.

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado, procurador aposentado e vereador em São Gonçalo do Amarante/RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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