O APLAUSO DA HISTÓRIA –

Há uma estação que não consta nos calendários, mas que, de tempos em tempos, muda o ritmo das cidades: a temporada da caça aos votos. Nela, surgem sorrisos, abraços, músicas e bandeiras. Personagens antes discretos reaparecem com energia renovada e intimidade repentina com lugares e pessoas.

O ambiente lembra Copa do Mundo: cores se multiplicam, torcidas se inflamam e adversários viram inimigos, como se a democracia não dependesse do contraditório. Nas feiras, o cenário ganha sabor. Candidatos abraçam o povo, pegam crianças no colo, chamam feirantes pelo nome, ou perguntam ao assessor, e provam de tudo: pastel, tapioca, buchada, cocada e café adoçado. A dieta fica para depois.

Até a memória se expande: bairros “de infância” surgem e feiras recém-conhecidas ganham passado afetivo. Nos botecos, ouvem queixas e soluções prontas para todos os problemas. O candidato escuta, concorda e anota. Nos bairros, multiplicam-se abraços, selfies e promessas. Nos bastidores, acordos se firmam, arte do jogo político, inclusive quando o interesse público se torna moeda de troca.

No centro de tudo está ele: o eleitor. Cabe-lhe separar promessa de realidade e simpatia de compromisso. Não é tarefa simples, pois campanhas emocionam, mas governar exige responsabilidade.

Por isso, eleição não é futebol. Na política, escolhas têm consequências: escolas que não se constroem, hospitais que não funcionam e tempo perdido, o mais irrecuperável dos bens. Na urna, não se vota em carisma ou café, mas em futuro. Depois, a festa termina: carreatas somem, bandeiras são recolhidas e os eleitos deixam as ruas para ocupar os gabinetes.

Começa então o essencial: transformar promessa em ação. Ao eleitor cabe acompanhar, pois a escolha, não termina no confirma, continua na cobrança.

Que venha mais uma temporada de votos. Que candidatos caminhem, sorriam, dancem e abracem. Mas que o eleitor não esqueça: passada a festa, restam os eleitos e seus atos. Ao final, que vença o estado democrático. E que os escolhidos pelo povo governem de tal forma que, muito depois dos aplausos da vitória, possam receber o único reconhecimento que não se compra nem se ensaia: o mais raro e honroso de todos, o aplauso da História.

 

 

 

Alberto Rostand Lanverly – Presidente da Academia Alagoana de Letras

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *