MACAÍBA DE ANTIGAS CANÇÕES E VELHOS FOLIÕES –
Nestor Lima foi um macaibense da gema considerado “cônsul honorário” do município de Parnamirim. Era a quem recorria quando consultava a bússola do tempo, da tradição, das vertentes e das nascentes de nossa Macaíba. Revisito Nestor Lima para, através dele, penetrar na máquina de sua memória.
A nossa cidade, nas artes, conheceu o clássico e o popular. Macaíba foi cidade aristocrática dos anos 20, 30, das bandas de músicas José da Penha e a do Grêmio, pontificados nas figuras dos chefes políticos Neco Freire e Major Andrade. A flor da sociedade exercitava a música, o teatro e o canto, o que conferia a fama de “cidade cultural”. Vicente Andrade no trompete, violino e piano; Orlando Ubirajara e Rosalvo ao violino e piano; Euclides Ribeiro, saxofonista; Abílio Monteiro, trombonista; João Leiros no contrabaixo; Luiz Marinho de Carvalho, grande trompetista e pianista; João Lins e Luiz Martins, violonistas inexcedíveis; Valdemar Barros, virtuoso pianista Era a época, onde em cada rua do centro, existiam um ou dois pianos.
Nos dias de hoje, não existe um sequer. Anos 40 e 50, se destacaram em todo o município os famosos conjuntos regionais que interpretavam a música popular brasileira. Celebrizaram-se Nestor Lima, Cornélio Mangabeira, José Alves, José Cabral, Luiz Marinho, Manoel Domingos, Chicozinho, Carlito, Nizário Máximo, José Leiros, Sebastião Melo, Airton Feitoza. Todos formavam uma escola de batutas que hoje não se vê mais. Como também jamais se reeditarão os conjuntos teatrais que tanto sucesso fizeram em Natal, começando pela figura maior de Joca Leiros, seus filhos Zé Leiros, Wilson, Nozinha, Luiz Marinho e os filhos Gutemberg e Aidée, Antônio Coelho, Alice Lima, Hiran e Célia Lima, José Muniz, e Aguinaldo Ferreira. E para fechar o leque cultural, uma plêiade de cantores que enchiam de canto e encanto as noites macaibenses, do quilate de Salvador Galvão, Joanete Ribeiro, Edson Silva, Dorothy Moura, Aliete Muniz, Luiz Vieira, Cecília Marinho e Laíde Máximo.
Mas o carnaval macaibense nos anos prefalados, era o desaguadouro natural dos afluentes culturais da época. Não se pode esquecer os clubes de cordão: “Os Remadores”, os “Vassourinhas”, o “Coco-Zambê” do caboclo velho e as madrugadeiras “Maxixeiras”, anunciadoras primeiras do carnaval, comandadas por Lula Ramos. Dos blocos, o de Zé Ludovico caminhava à frente pelas ruas, nos seus 1,80 de altura, impertigável, imperturbável e inabordável, apesar de toda a folia ao redor. E o de Pedro Pixilinga, que resistiu, no mesmo passo e compasso como há 40 anos atrás. Pixilinga foi o campeão dos carnavais de todos os tempos. Ele surgia nas avenidas como um fogo olímpico e emblemático da cultura carnavalesca. Fazia carnaval na base da resistência, do sacrifício, comandando “Os Lampiões da Folia”. Pedro era um poço de recordações. A vida lhe marcou muito, desde as alegrias até as tristezas. Mas nada lhe abalou, porque soube com coragem enfrentar os desafios de homem pobre e leal. Será lembrado sempre como o folião número um da cidade, o “Lampião” dos carnavais macaibense.
Ainda me lembro da Escola de Samba de Zé de Papo, sambista incorrigível. As tribos de índios, bagunças, troças, tudo faz sentido hoje relembrar, abrindo alas para todos passarem na sempre comovida procissão de lembranças, na recomposição de um tempo que nunca mais se repetirá.
Valério Mesquita – Escritor, [email protected]
