INEVITABILIDADE –
Desde que nos entendemos por gente aprendemos que a vida é um processo evolutivo e que a velhice é o começo do fim da existência. Na juventude e na meia idade não damos tanta importância a inevitabilidade dessa assertiva. Somente atentamos para o fato quando ingressamos no clube da terceira idade.
Até então tudo é maravilhoso. A rapidez com que atravessamos a infância, adolescência e início da vida adulta são estágios imperceptíveis e nem tão exaltados como deveriam, pela importância que representaram na medida em que foram desfrutados. Já a velhice, nunca foi motivo de preocupação por imaginá-la fora de cogitação devido a distância a percorrer até alcançá-la.
Eis que de repente a terceira idade se instala. Aí vem as baboseiras, tanto de quem a romantiza quanto de quem a demoniza: “Velho é ranzinza”, “Velho não pode usar isso ou fazer aquilo”, “Velho é tudo igual”, “A melhor idade” ou “Todo idoso é sábio”.
Admito que a velhice compõe o processo evolutivo da vida embora imaginando que a natureza poderia ser menos cruel com seus indivíduos, evitando a decrepitude física e, a pior delas, a mental.
Anos atrás fui visitar um estimado professor já falecido e, ao chegar na sua casa de praia fui recebido com a cortesia de sempre. Notei no seu rosto uma feia infecção que logo soube se tratar de herpes labial. Na oportunidade, admirado, perguntei: O que é isso professor? Respondeu-me ele com um desabafo: Velhice, Narcelio! A velhice é uma mer…!
Lembrei na íntegra a verdade contida na frase do falecido professor ao encontrar, dias atrás numa agência bancária, um amigo de infância do qual não tinha notícias há meses. Ele entrou no recinto numa cadeira de rodas, empurrada por uma cuidadora. Poucos movimentos no corpo e, no rosto, somente trejeitos faciais.
Notei um outro amigo meu dele se aproximar e falar algo ao seu ouvido. Levantei-me e perguntei ao segundo amigo de quem se tratava e ouvi: Narcelio, é Fulano! Eu não quis acreditar. Agachei-me junto à cadeira e tentei trocar algumas palavras sem saber se ele as entendia. A ajudante afirmou que sim.
Continuei agachado falando ao seu ouvido até a cuidadora resolver seguir adiante. Ia me afastar quando ela pediu para eu posicionar a cabeça na altura da cabeça do cadeirante. Assim procedi e recebi um beijo na face. Retribui o ato de amizade com outro beijo e deixei a agência bancária arrasado emocionalmente.
Relembrei que meses atrás ele comentava as crônicas e artigos que eu lhes enviava, com elogios exagerados. Estranhei não mais receber suas apreciações, embora observasse a indicação de que eram lidas. Estava esclarecida minha dúvida: a doença o impedia de demonstrar sua afeição pelo amigo de juventude.
Não acredito que viver na decrepitude seja salutar nem para o indivíduo nela investido, nem para a família que o rodeia. É algo doloroso, desgastante e cruel. Evito dizer ser uma mer… para não criar controvérsias.
A dura verdade é que tudo integra a inevitabilidade do porvir da existência, permitindo que alguns aguardem esse amanhã como uma partida não tanto torturante; enquanto outros, por razões inexplicáveis, sofram mazelas além do que a razão permite conceber. Simplificando, envelhecer não é e nunca será fácil.
José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil
