FARMANDO AURA ENTRE ENTULHOS –
Minha cozinha nova ainda não saiu do papel, mas o material já fez mudança. Tem cerâmica empilhada num canto da sala, saco de cimento fazendo papel de criado-mudo na varanda, o rejunte morando há três meses em cima da geladeira e uma caixa de luminária que virou apoio para nada, porque aqui nem tem mais onde apoiar. Atravessar a sala virou parkour. É desvio de porcelanato, salto sobre argamassa, equilíbrio sobre o fio da paciência. Se eu consigo chegar na pia sem derrubar nada, eu não andei. Eu farmei +500 de aura de ginasta olímpica do lar.
E por que a casa virou depósito? Porque o pedreiro bom, esse ser mitológico, ainda não acabou a obra do outro. Ele está no clássico “só mais dois diazinhos” desde o Carnaval. Já passamos da Páscoa, do São João e ele ainda está no “já tô indo”. Profissional de qualidade é escasso, a gente sabe, não pode brigar, tem que mimar, oferecer café e dizer “sem pressa” com a voz calma e por dentro chorando em posição fetal em cima do saco de cimento. Enquanto seu lobo não vem, a gente vai empilhando, e empilhando… +5000 de aura de cliente fiel, nível santa do revestimento.
Enquanto espero a cozinha, ganho trilha sonora grátis. Não é da minha casa, é da casa da minha filha, vizinha de condomínio, mãe de duas pets de porte médio. Quando ela sai, as garotas acham que foram abandonadas para sempre e iniciam a turnê mundial “Latidos do Pitanga”. Eu ouço, o condomínio inteiro ouve. Eu, como boa avó postiça e vizinha, farmei a mais difícil de todas: +10.000 de aura de quem ouve o latido alheio com elegância e ainda não dedura a filha no grupo do WhatsApp.
Aí, para fechar o dia, abro o Instagram e me vejo nos anos 80. Cabelo armado, sombra azul até a testa e um par de óculos vermelho enorme, bem diva de fliperama do Pac-Man. Eu, que pouco pisei num fliperama, agora estou farmando aura de musa retrô. E é isso que essa gíria nova me ensinou: a gente sempre viveu num videogame invisível, só não tinha legenda.
Segurar o elevador para a vizinha com cinco sacolas sem ganhar um obrigada? Aura modo lendário. Não mandar a fila do supermercado para o espaço? +1000 de aura de paciência. Conseguir rir da sala cheia de entulho, dos cachorros que não são meus, mas me acordam, do pedreiro que é quase da família de tanto que a gente espera, e ainda transformar tudo isso em crônica em vez de lavar a louça? Minha filha, isso já não é aura. É patrimônio histórico.
Hoje farmei minha aura do dia: não arrumei nada, não calei ninguém, não terminei cozinha nenhuma. Escrevi. Se a obra reclamar, digo que estou em reforma íntima, em obras eternas, como toda boa casa brasileira. No placar geral desse condomínio, o porcelanato continua no chão da área, mas a minha aura de escritora está intacta, brilhando mais que a sombra azul dos anos 80. Quem precisa de balcão de granito, península de cobogó, quando se tem a pontuação máxima de quem sabe rir do próprio caos?
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]
