FALANDO NAS CANETINHAS –
Pensei muito antes de escrever este texto. Não quero fazer disso uma batalha, com prós e contras ou, pior, ser uma defensora ferrenha de um lado ou outro. Mas, depois de ouvir um diálogo insano enquanto treinava em um dia que esqueci meus fones de ouvido, penso ser necessário comentar sobre isso.
Duas pessoas ao meu lado apontavam para alguns e perguntavam “você acha que é mounjaro?”. Ou afirmavam “Deus me livre precisar disso se posso fazer meus treinos!”. Eu me questionava se eles falam o mesmo para alguém com uso de medicação para depressão, diabetes ou qualquer doença silenciosa. Como se as canetinhas fossem usadas exclusivamente para reduzir o peso e, pasme!, como se ser gordinha fosse preguiça de treinar ou “não conseguir controlar a boca”.
Porque as canetinhas, como carinhosamente apelidamos, são medicamentos. E não são fáceis de usar! Digo isso como alguém que está em tratamento faz seis meses. Requer uma disciplina assustadora. Além de vitaminas, creatina, whey, ingestão de água, de fibras, de proteína, preciso de acompanhamento médico constante, com exames de imagem e de sangue, doses controladas de perto, musculação como parte do tratamento, comer mesmo sem querer. Enfim, não é mágico. Parece que é, né? Olhando de fora parece “comprou, emagreceu”. Muito longe disso!
A balança nem sempre é aliada e a psicoterapia precisa ser coadjuvante no tratamento.
Sim, perdi peso. Mas tem coisas além do peso que estão em jogo. E elas não são um jogo de apontar: é mounjaro ou não é? Vai além do peso, da estética, de entrar no padrão. É lutar com uma arma contra um vilão, em alguns casos a obesidade, como em qualquer situação que se aparece na vida.
Enquanto os dois gargalhavam e julgavam cada pessoa que passava, eu me questionava se ia lá e dizia algo para os trazer ao mundo real. Preferi a resposta silenciosa. Continuei contando até 15 repetidas vezes enquanto ia de um equipamento a outro na academia. Chateada por ter esquecido meus fones. Feliz por poder estar em tratamento e ver que sou forte pra caramba para usar as canetinhas e fazer tudo como sou instruída pela médica que me acompanha.
Não é milagre.
É disciplina.
Não é vergonha usar.
Vergonha é julgar.
Observação: como qualquer tratamento medicamentoso, faça acompanhamento por um médico responsável!
Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento” e Escritora
