EXCLUSÃO DIGITAL DO IDOSO –

Um dos netos me falou sobre um trabalho escolar que desenvolvera, intitulado Desafios para o Controle da Exclusão Digital do Idoso. Por coincidência, um colega me enviara matéria semelhante. Foi a motivação que me faltava para uma análise acerca do problema criado na modernidade para indivíduos de idade avançada.

O texto a seguir é de uma charge onde uma atendente portando celular dá explicação a um idoso: “O senhor vai baixar o aplicativo e entrar em Gerar Código de Acesso. Aqui tem o certificado digital. Faz o login e clica em Escolher o Arquivo. Ele vai pedir um código de liberação de acesso nas extensões JPG, PNG ou PDF…Entendeu?” A perplexidade do indivíduo mostra seu alheamento da realidade.

O articulista Cláudio Sá E Guimarães define assim o problema: Uma sociedade que obriga uma pessoa de 90 anos a usar um smartphone para acessar seus próprios direitos não é moderna: é uma sociedade que decidiu se livrar de seus idosos.

E acrescenta: A tecnologia deve ajudar, não selecionar quem tem direito à dignidade. Quando deixamos para trás aqueles que vieram antes de nós, não estamos evoluindo, estamos apenas nos tornando mais cômodos e mais egoístas.

A transição abrupta do atendimento presencial para o digital impôs dificuldades de compreensão quanto ao uso de aplicativos e navegação segura. Por isso, urge o desenvolvimento de interfaces mais simples, comandos de voz e assistência direta para transformar a tecnologia em uma aliada, jamais em inimiga da terceira idade.

A velocidade com que a Inteligência Artificial avança no nosso dia a dia é algo chocante para o idoso. Sempre o último a tomar conhecimento da novidade, ele a todo instante se surpreende. E mais: a vulnerabilidade a fraudes financeiras digitais a cada dia mais sofisticadas, geram medo e desconfiança afastando-os da tecnologia.

Os bons pagadores de contas mensais de água, luz, gás e telefone mediante recibos entregues nas residências, a essa altura atravessam momentos de angústia com receio de verem cortados seus fornecimentos por falta de pagamento. Não por irresponsabilidade, mas por desconhecimento de como obter tais recibos digitalmente.

Saí com o dito neto para uma compra no shopping e eis que, para minha surpresa, ele efetua o pagamento aproximando o relógio digital da máquina de cartão de crédito. Mais uma inovação que eu desconhecia e me recuso a aceitar por receio de clonagem eletrônica ou algo do tipo.

É informação em demasia para quem ao meio-dia já não lembra o que comeu no café da manhã, o dia da semana, o nome do filho que acabou de ligar e sem saber o que foi fazer naquele banco. Será exagero querer que tal indivíduo lembre a senha do cartão de crédito para efetuar qualquer operação financeira exigida pela IA?

Falando assim com tanta propriedade sobre o assunto que elegi como prioridade hoje, posso estar deixando em dúvida o leitor quando a minha sanidade mental, já que exorto com tanta veemência os avanços da tecnologia digital em detrimento das limitações dos idosos.

Outra coincidência pertinente. Enquanto eu escrevia esta matéria, o Papa Leão XIV, falava na televisão sobre a encíclica Magnifica Humanitas, um alerta histórico onde defende que a Inteligência Artificial precisa ser desarmada. Suas principais preocupações são: o uso de decisões automatizadas em guerras, a substituição da dignidade humana e a erosão do pensamento crítico.

 

 

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil

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