Segue o texto da entrevista com a estudante de enfermagem da UFRN, Ana Clara Monteiro, que faz parte do grupo de socorristas, que estão na manifestação desde às 17h. (Leila de Melo)
P- Como surgiu a ideia de criar um grupo de socorristas?
R- A ideia surgiu no meio das discussões sobre o próprio protesto, no evento do facebook. Muitas pessoas estavam se sentindo inseguras em ir às ruas porque acreditavam que iam sofrer a repressão da polícia e serem agredidas, além de terem medo dos vândalos. Daí um socorrista, Heros Henrique, lançou a proposta de criar um coletivo popular composto por estudantes, socorristas e até profissionais. Isso foi lá no próprio evento do facebook, ainda essa semana. Hoje somos 38, estudantes de várias universidades de enfermagem, medicina, fisioterapia, e até mesmo alunos de pedagogia, serviço social e administração. Há também fisioterapeutas, biomédicos e socorristas graduados.
P- Para participar é necessário o que?
R- É preciso que você cumpra todo o cronograma estabelecido. Tivemos treinamento teórico e prático ao longo da semana e fazíamos a triagem a partir de quem poderia ir a todos os treinamentos.
P- No treinamento realizado, o que especificamente foi ensinado?
R- Nas aulas teóricas nós recebíamos vários tipos de informação sobre como atender alguém acidentado. Entendemos a ação do gás lacrimogênio e do spray de pimenta, entendemos onde eles afetam e como poderíamos minimizar isso. De acordo com o grau de lesão em um acidentado, aprendemos a perceber até onde nossa ação como voluntário pode ir e qual a hora de acionar a SAMU ou o Sinsaude, que estará lá com uma ambulância e uma equipe de enfermeiros e técnicos em enfermagem.
P- Essa iniciativa de um núcleo existe em outros movimentos ou surgiu aqui em Natal?
R- Não, não começou aqui. Já vimos exemplos desse tipo de atitude em Salvador e no protesto de 100 mil pessoas no Rio de Janeiro, mas somos a primeira equipe de voluntários em socorrer de Natal.
P- A equipe de socorristas reitera sua posição pacífica?
R- Quero deixar bem claro que apesar das diferenças entre os voluntários, todos nós dedicamos nosso tempo, esforço e concentração nessa última semana em prol de um só desejo: O de servir ao próximo. Isso significa que não somos exclusivos dos manifestantes, mas também dos policiais militares e da mídia local que se machucar. Quero dizer também que de forma alguma apoiamos atos de vandalismo e esperamos levantar mais nossos cartazes que nossos materiais de socorros. Estamos ali como uma medida preventiva e se formos necessários, para garantir que os machucados sejam socorridos e encaminhados. E que estaremos usando batas brancas, com uma faixa vermelha no braço, e sempre nas linhas laterais do protesto.