ENTRE O INSTANTE E O ETERNO… –

A vida não pede licença. Ela entra. De chinelo, de salto, de ressaca ou de esperança. É calor que vira frio sem avisar, noite que acende o dia no susto, silêncio que tropeça no próprio som. E a gente ali, no meio, tentando parecer que entende o roteiro. Não entende. Hoje eu sou uma, ontem fui outra… Amanhã, se Deus quiser, serei uma terceira que ainda nem me apresentaram. Constância é palavra de dicionário, gente é verbo, a gente conjuga, tropeça, recomeça, e tá tudo bem! Porque é justamente nesse não-caber-em-si que a gente vira infinito.

O medo dá voz de vó: “menina, não faz isso”, o desejo tem voz de adolescente: “faz, e vê no que dá”, lá vou eu, equilibrista de havaiana, numa corda que ninguém vê, mas todo mundo sente. O risco assusta, no entanto, que tédio seria a vida sem ele? É o frio na barriga que lembra que a gente ainda pulsa. Quem é essa tal identidade que a gente defende com unhas e dentes? É fantasia de Carnaval, que se troca todo ano, tem a versão mãe, a versão profissional, a versão que chora no carro, a versão que dá palestra, todas verdadeiras, todas minhas, e, se forem contraditórias, paciência! Coerência demais é coisa de planilha, não de gente.

Querer controlar a vida é igual tentar segurar mar com a mão, a onda vem, te molha, te derruba, te diverte, afinal, não é pra segurar, é pra boiar, pra mergulhar, pra sair com cabelo na cara e rindo. A vida não quer gerente, quer cúmplice. A gente vive procurando sentido como quem procura óculos na bolsa: tá ali, mas só acha quando para de remexer, o que nos leva a entender que sentido não é ponto fixo, é movimento, pois, somos rio, minha filha, batemos em pedra, fazemos curva, às vezes empoçamos, e seguimos. O mar é lindo, veja, o caminho, até ele, é onde a gente vive.

Perdi a conta de quantas vezes me reinventei, teve a que casou achando que era pra sempre, a que se separou descobrindo que “pra sempre” é tempo demais pra caber num contrato, a que trabalhou de sol a sol pra provar valor, e a que largou tudo pra provar pra si mesma que podia recomeçar, ah, também teve a com medo de envelhecer e a que hoje, perto dos 55, acha graça de ter tido medo.

Porque envelhecer é isso: descer do salto da exigência e calçar a rasteirinha da liberdade, é trocar a sala de visitas pela varanda, é entender que a casa não precisa impressionar, precisa abraçar, que o corpo não precisa caber no padrão, precisa caber na vida. Então sigo assim: entre o café de agora e o sonho de depois, entre o que fui e o que ainda nem desconfio que serei. A vida manda, desmanda, me bagunça o cabelo e reorganiza as gavetas, e eu, que já quis tanto ser só uma, descobri o luxo de ser várias.

Ninguém nos avisa que crescer dói e liberta na mesma medida, que cada adeus é um parto, cada recomeço é um batismo sem padre. A gente só vai. Com medo, com fé, com a bolsa cheia de versões de si mesma. Viver é aceitar o paradoxo, servi-lo num prato bonito e brindar. Porque no fim, ser muitos em um só não é contradição, é abundância, é ter história pra contar e espaço em branco pra escrever a próxima.

E se me perguntarem qual é a minha versão definitiva, eu respondo: nenhuma. A definitiva seria o fim. E eu ainda tô no meio do livro, virando a página, com o lápis na mão, e borracha também.

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]

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