E OS PAIS… –

Lembro do pátio da minha escola. Todas as crianças sentadas no chão, diante da capela. Cada uma de nós segurando um copo de café descartável e um palito de picolé onde havíamos colado um boneco pintado representando nossos pais. As professoras passavam com uma jarra com gesso fluido e preenchiam nossos copos, orientando para enfiarmos o palito no meio do gesso e aguardar. Esse era o presente. Depois de meia hora isso se transformou num peso de papel, que levamos pra casa para presentear nossos pais. Lembro de chegar ao trabalho de papai e ver o peso lá, sendo usado em sua mesa.

Faltou dizer como eu pintava mal e o bonequinho era um garrancho feioso, mas feioso feito com amor.

Alguns anos depois, nossos filhos passaram a dar os presentes do pai. As escolas já eram mais modernas, os presentes mais elaborados. Porta CD, camisetas, necessaire, ecobag. Com bordados de “feliz dia dos pais” feitos com capricho  e, no máximo, as pinturas das mãos deles mostrando um pedacinho de singularidade.

Sinto falta da singularidade…

Os presentes dos pais acabam sobrevoando um espaço meio neutro no comércio. Camisas, carteiras, livros. Parece mais do mesmo.

Passei dias pensando no que oferecer ao meu pai esse ano. Decidi por uma balança digital, pois ele ama se pesar.

Encomendei.

Chegou.

E chegou também mensagem de mamãe: “Seu pai me deu uma balança igual a sua”.

Lá se foi o presente criativo.

Mais uma semana procurando o que dar e rindo da absurda coincidência da balança.

Talvez não seja coincidência. Seja apenas um jeito de perceber que no fundo somos mais parecidos do que imaginamos.

 

Bárbara Seabra – Autora de “O diário de uma gordinha” e “A janela do isolamento” e  Escritora

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