DENTRO DO BOMBOM –

Tem letras de músicas que fico pensando mil vezes no significado. Você também? Tem aquelas que me emocionam, me acolhem, me irritam, me incomodam. Tem aquelas que passo anos cantando errado até que descubro isso e fico chocada. Como Dona, de Roupa Nova. Sempre cantei “Tanta dama bem na porta, não precisa ver quem é” e, esse ano, fui surpreendida ao ler a letra “Tan tan tan, batem na porta, não precisa ver quem é”. Como assim? A minha versão faz muito mais sentido. Não faz?

Então, escutando pela milésima vez Sonho de Ícaro, de Biafra, chega a parte da letra “Dentro do bombom há um licor a mais”. Gente! Eu sempre paro aí, nessa frase, sem prestar atenção no que vem depois. Essa frase é antecedida por “Repetir o amor já satisfaz”. Tudo bem, frase legal! Aí ele solta um: Dentro do bombom há um licor a mais… De onde saiu isso? Sinceramente, não sei.

Assim como não entendo de onde Nenhum de nós joga em O Astronauta de Mármore essa:

“A trajetória escapa o risco nu, uh-uh

As nuvens queimam o céu, nariz azul, uh-uh

Desculpe, estranho, eu voltei mais puro do céu”

O que significa? Há uma mensagem subliminar aí que não consigo ver?

Sei que não entendo as nuvens queimando o céu e dentro dos bombons de hoje em dia mal temos qualquer tipo de recheio. Seja creme de cupuaçu, banana passa ou um licorzinho, está tudo cada vez mais mirrado.

Então, cansada, mudo a playlist e decido parar de prestar atenção nas letras e apenas curtir as músicas. Ou, ainda melhor, ouvir uma que me faz sentido cada vez mais:

“Quem me dera, ao menos uma vez

Que o mais simples fosse visto como o mais importante

Mas nos deram espelhos

E vimos um mundo doente”

Obrigada, Renato Russo!

 

Bárbara Seabra – Autora de “O diário de uma gordinha”, “A janela do isolamento” e “Não me lembro”, Escritora

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