DE PEQUENOS PECADOS –

A cada um os seus desejos. Questão só de imaginá-los. O que me parece essencial para dar ânimo à vida. O princípio basilar da ética da convicção, se é que isto existe. Max Weber e Hegel já tocaram no assunto. Não vou dissecar o tema por simples e mera incompetência. É que quando leio o que essa gente escreve o faço de maneira geral um tanto superficial, só pra aplainar um pouco a ideia, ao tentar fugir do medo que dá a treva da minha ignorância. Nem cozinhar eu sei. Talvez um reles curioso culinário, com a neurótica compulsão de ler de tudo (até receitas de pratos opíparos e apetitosos, segundo o meu gosto) e sempre que dá sopa discuto a maneira de fazê-los, apesar de na prática não saber nem como fritar bem um ovo.

Como certa vez me intrometi (eu, apenas um glutão) num papo de chefs de cozinha e gourmets, que pareciam ser conhecedores e apreciadores de iguarias finas. O assunto era como fazer um peixe na telha de maneira correta. Me deu na telha e chutei, na gozação, que para se dessalgar um bacalhau não haveria a necessidade de deixá-lo de molho na água desde a noite anterior. Necessário se faria colocá-lo em um recipiente numa solução aquosa com uma concentração de cloreto de sódio bem superior à nele contida (no bacalhau) e trocar a pia de sal e água três vezes. O tempo para o bacalhau ficar no ponto antes de cozinhá-lo levaria no máximo duas horas. Caras de espanto. Você já fez isto ? Claro, um português me ensinou em Lisboa. Interessante, vou tentar . Deslavada conversa fiada baseada apenas no conceito de osmolaridade, que aprendi quando fazia o científico, sem nada pensar o que fazer da vida. Nunca mais os encontrei e nem soube do resultado final da experiência. Parece que funcionou no momento, eis o que importa.

Claro está que o imaginário é o antídoto de tudo que dá medo e é complicado e difícil na vida. No fundo eu gosto mesmo é de literatura policial. O que se imagina ou se deseja se entrelaça com o caráter universal deste imaginário. Como dizia André Breton, ele é tudo o que tende a vir a ser real.

Verdade que Deus bolou um mundo ideal, seus habitantes expostos à felicidade absoluta e eterna, mas Satanás pôs areia no brinquedo do Criador. Criou o mundo real da desesperança e caiu em desgraça. E da desgraça,parece, se originou a realidade cotidiana, tendo a rebelião como instrumento. E da desobediência nasceu a força. Do livre arbítrio de poder dizer Não .

Daí lembrar que Camus parece ter tido razão ao afirmar que, “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demônio não precisa existir para haver”. Daí porque eu acredito nos dois em tese, como na metáfora de Adão e Eva como gênese da revolta humana em busca do conhecimento.

A paixão tomando conta da razão sendo substituída pela rejeição do convencional muitas vezes já nem tanto gasto assim. E ao que parece, o Ser Supremo inverteu a sequência dos eventos. Eva deve ter aparecido primeiro por obra e graça do Espírito Santo à semelhança do que aconteceu muito tempo depois com a mulher de José. Afinal, ela não tinha umbigo e a parte pudenda encoberta por uma folhinha de parreira ainda dão margem a discussões e controvérsias. Deus e o diabo fazem parte de nós.

Eis a razão da existência dos libertários, dos utopistas, dos ateus negadores da existência de Deus e dos revolucionários de ocasião (embriões dos reacionários do futuro). Pra fazer o gol eles alimentam-se de César, Carlo Magno, Clausewitz, Marx, Jesus, dentre muitos outros. Até de Tite, a bola da vez. Pois essas coisas se adaptam melhor do que nunca às técnicas do futebol, onde os desafios se preparam da mesma forma que se organiza uma batalha. O detalhe para se descobrir as fraquezas , arruinar a força moral, além dos detalhes metodológicos do esquema do jogo. Sem falar da guerra psicológicas pelos jornais, rádios, televisões, outdoors, página impressas, malas-diretas, balões infláveis, discursos, besteiras veiculadas na Internet, o escambau. O Supremo Engodo que, à guisa de aplicar a lei, apropria-se do espaço, do tempo e do ambiente. A transferência da palavra para o âmbito da semântica. A metáfora da Belíndia, o microcosmo onde a contradição e o surreal se confundem.

Um pouco de nós, portanto, vive nos nossos desejos, na nossa voz reprimida, na carta não escrita, no alívio da confissão, exteriorizada nos pedidos de perdão, no desejo de ligar-se o “foda-se” , muitas vezes. Na esperança do que você sempre quis dizer a alguém e nunca teve coragem. No desejo de precisar falar de uma vez por todas, mas se desiste, na espera de chegar o momento mais apropriado. Até o desejo, confundido com a esperança, de vislumbrar no futuro um país melhor para os nossos filhos. No fundo, uma vontade castrada que nem chega a ser desejo. Só delírio. “Essa luz que ilumina a imensidão de se querer, num tempo que caminha sem chegar …”

 

José Delfino – Medico, poeta e músico
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