CONTRADIÇÕES DA VIDA –
Não consigo entender determinadas distorções que acontecem no mundo dito civilizado, em especial àquelas que nos levam a escolher ídolos para serem venerados até aos limites do absurdo.
De idêntica forma não me entra na cabeça a maneira como grande parte de jovens – e adultos também – de ontem e de hoje reagem ante a presença de tais ícones, com manifestações de descontrole emocional que beira a loucura explícita.
As cenas mais significativas de extremismo emotivo que eu guardo na memória foram as vistas em filmes sobre o império romano, quando cristãos eram sacrificados nas arenas por feras, enquanto gladiadores em embates crudelíssimos que findavam no sacrifício dos perdedores, causavam entusiasmo mórbido aos assistentes.
Não sei em que parte do nosso cérebro reside essa parcela de maldade e barbaridade, mas que ela existe e integra a personalidade do ser humano eu não tenho dúvidas. Contrastando com a exultação de muitos de nós vem o parcimonioso procedimento de outros, dentre os quais eu me incluo.
Eu gosto de futebol, da boa música, de bons livros e filmes, da beleza humana e da natureza, resumindo, aprendi a admirar e a gostar do que é delicioso, formoso e da habilidade humana como qualquer indivíduo normal. Porém, não recordo de quantas vezes na vida demonstrei essa benquerença aos gritos ou aos berros de exaltação.
Tal assunto eu pus em voga neste texto para comentar o extremismo da paixão que o futebol desperta nos seus admiradores, de ambos os sexos de todas as raças, etnias e matizes, religiões ou tendências ideológicas. Pessoas dominadas pela fascinação por seus clubes e ídolos, que perdem a compostura durante o ardor dos embates futebolísticos.
Falemos das contradições. Li que o futebolista mais bem remunerado do planeta é o português Cristiano Ronaldo, atualmente jogando no Al-Nassr da Arábia Saudita. O dito cujo recebe por temporada a bagatela de U$ 280 milhões de dólares, algo no entorno de R$ 1,4 bilhão de cruzeiros para jogar estimadas 55 partidas ou 82,5 horas de trabalho.
Foi-se o tempo em que o maior ídolo do futebol norte-rio-grandense, Alberi, jogador do ABC de Natal, do qual falavam à boca pequena haver assinado um contrato que foi pago com um rádio; ou, das palavras sinceras de uma das lendas do futebol brasileiro, Garrincha: Eu nunca visei o dinheiro, sempre fui amador. Jogava e queria jogar!
Enquanto isso um cientista que passa horas incontáveis debruçado sobre um microscópio para descobrir uma vacina que salvará a vida de milhões de semelhantes seus, o prêmio maior que receberá é o Nobel que gratifica o vencedor da área de atuação específica com a quantia de R$ 5,5 milhões de reais – valor esse pago na última premiação.
Eis alguns dos meus heróis para os quais eu não pouparia aplausos comedidos: Alexandre Fleming, médico descobridor da penicilina; Albert Sabin, médico inventor da vacina contra a poliomielite; Edward Jenner, médico naturalista, criador da vacina contra a varíola. São figuras humanas como essas que merecem todas as honras e ovações da humanidade.
Esperem: e se for eu a contradição?
José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil
