CADA UM NO SEU QUADRADO –

Tem gente que é mar aberto. Tem gente que é piscina de borda infinita. Tem gente que é só um copo d’água, mas servido na hora certa. E tá tudo certo.

A vida não veio em forma única. Se viesse, que tédio seria o ponto de ônibus, todo mundo igual, com a mesma roupa, pensando a mesma coisa, indo pro mesmo lugar. Deus me livre de fila assim. O bonito é a diferença, é o vizinho que rega planta às 6 da manhã enquanto você ainda xinga o despertador, é a moça do caixa que prefere silêncio e o menino do aplicativo que não cala a boca.

A gente passa a vida querendo enquadrar, explicar o outro com a nossa régua, sem falar que, medir o sonho alheio com a nossa trena, sempre dá errado! Ora, minha trena não alcança a sua varanda, nem muito menos a minha régua consegue medir a sua vontade de ficar quieta no sábado à noite. Cada um tem um jeito de ser casa. Tem quem goste de porta aberta, som alto, visita sem avisar. Tem quem prefira a chave guardada, luz baixa, silêncio de livro. Nenhum tá errado. Errado é invadir. Errado é achar que o seu modo de morar em si é o único CEP que presta.

Respeito é isso: entender que o seu quadrado não é maior nem melhor. Ele é só seu, e o do outro também. Tem aqueles que cabem até uma cozinha-ilha, um sonho de viajar sozinha aos 60, uma vontade de não ter filho, de ter cinco, de casar de novo, de nunca mais… Cabe o que couber e quiser, e não me cabe julgar a metragem. Eu sei que demorei aprender, mas, isso também faz parte, imaginem, já quis que todo mundo coubesse no meu molde, desenhado do meu jeito e como grande tola, queria que a amiga pensasse igual, que o filho escolhesse igual, que o amor sonhasse igual, e como de se esperar, quebrei a cara, quebrei a forma, quebrei o molde. Descobri que amor é deixar o outro ser inteiro, mesmo quando esse inteiro não combina com o meu sofá. “Êdaí?”

Somos únicos de fábrica, ainda que gêmeos, não tem lote, nem promoção “leve dois”, cada um vem com manual próprio, escrito numa língua que só a vida traduz, e cada um a sua maneira, pois, tem quem leia o rápido e quem demore 55 anos pra entender a primeira página, e tudo bem! O tempo de cada um não atrasa o relógio de ninguém, não é verdade?

Seu sonho não me deve explicação, assim como, meu sonho não te pede permissão. E se eu quiser derrubar parede para fazer uma ilha, e você quiser manter a copa e a mesa de fórmica da avó, pode ter certeza, as duas estarão certas, porque é assim que funciona, as duas cabem no mundo, nesse mundão gigante, o que falta de verdade é espaço na cabeça da gente. Individualidade não é egoísmo, de jeito nenhum. é assinatura, é dizer: “eu sou essa aqui, com esse cabelo, essa história, esse jeito torto de ser feliz”, é também dar ao outro o direito de assinar o nome dele do jeito dele, sem corrigir a letra.

A gente vive se esbarrando por aí: no trânsito, na fila do pão, no grupo da família… A vida só melhora quando a gente para de empurrar o outro pra caber no nosso banco, e sabe o porquê?  tem banco pra todo mundo e tem gente que prefere ir em pé, olhando a paisagem. Então deixaaaa… deixa a menina comer manga às 7h40, o senhor usar meia com chinelo, a mulher de 55 recomeçar do zero, com furadeira na mão e plano na cabeça. Deixa!!! Porque o sonho que mora no outro não te tira o teto, só te ensina que existe mais de um jeito de morar no mundo.

No fim, respeitar o espaço do outro é o jeito mais bonito de honrar o nosso, é entender que somos ilhas, sim, mas, compreendendo que ilha não é solidão, é geografia, cada uma com sua praia, sua vegetação, seu jeito de amanhecer, afinal, entre uma ilha e outra tem mar, e é nele que navega o respeito, e se assim captarmos a essência do mar a gente aprende que ser único não é ser sozinho, é só ser, do seu jeito, inteiro, sem pedir desculpa.

Cada um no seu quadrado. E todos no mesmo mapa. Que o mapa é grande e a vida, se a gente deixar, cabe todo mundo.

 

 

 

 

Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim, crô[email protected]

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