A Braskem, uma das maiores empresas petroquímicas do país, protocolou nessa segunda-feira (24) um pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar cerca de US$ 10,9 bilhões (R$ 56 bilhões) em dívidas.

“A Braskem S.A.vem comunicar aos seus acionistas e ao mercado em geral que protocolou, nesta data, em conjunto com certas controladas, pedido de recuperação extrajudicial , distribuída na 2ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais da Comarca da Capital do Estado de São Paulo”, escreveu a companhia em fato relevante.

 

As tabelas financeiras anexadas ao plano mostram que o valor total envolvido é maior quando também são consideradas as dívidas entre as próprias empresas do grupo, chamadas de obrigações intercompany.

Somadas, essas dívidas chegam a R$ 130,6 bilhões, sendo R$ 51,5 bilhões da Braskem S.A., R$ 34,5 bilhões da Braskem Netherlands B.V., R$ 44,2 bilhões da Braskem Netherlands Inc. B.V. e R$ 372 milhões da Braskem Trading & Shipping B.V.

Com a soma das dívidas internas e externas, o total de créditos relacionados ao plano chega a aproximadamente R$ 187,1 bilhões.

O pedido foi apresentado com o apoio de credores que representam 39,6% dos créditos incluídos na reestruturação — percentual acima do mínimo de um terço exigido para o protocolo da recuperação extrajudicial.

Com o pedido, começa agora um período de 90 dias de proteção, durante o qual os credores abrangidos pelo plano não poderão cobrar judicialmente essas dívidas nem adotar determinadas medidas contra os ativos das empresas.

Durante esses 3 meses, a Braskem vai negociar com os demais credores para tentar ampliar o apoio ao plano. O objetivo é alcançar a maioria simples dos créditos sujeitos à recuperação, percentual necessário para que o acordo seja aprovado e passe a valer para toda a dívida incluída na reestruturação.

O que acontece agora

  • Hoje (24): pedido de recuperação extrajudicial é protocolado e começa o período de 90 dias de proteção;
  • 31 de agosto: Braskem deve apresentar plano de negócios atualizado e proposta detalhada aos credores;
  • 9 de setembro: reuniões presenciais entre executivos, acionistas e credores;
  • 9 de outubro: prazo para buscar acordo sobre as principais condições comerciais;
  • Até o fim dos 90 dias: Braskem precisa conquistar apoio suficiente dos credores para aprovar o plano definitivo.

Entenda a RE da Braskem

PontoO que aconteceO que significa
Quem está no planoBraskem S.A. e cinco empresas do grupo no exterior.A reestruturação é feita de forma conjunta.
O que entraO plano abrange dívidas financeiras quirografárias.O foco é exclusivamente a dívida financeira.
O que não entraDívidas operacionais com fornecedores, clientes e prestadores ficam fora.A operação da companhia continua normalmente, sem que essas obrigações sejam reestruturadas pelo plano.
Apoio inicialCredores que representam 39,6% dos créditos sujeitos apoiaram o pedido.O percentual já supera o mínimo de 1/3 exigido para o protocolo.
Próximos 90 diasA partir de 24 de agosto, começa um período de 90 dias de proteção (standstill).Nesse período, os credores sujeitos ficam impedidos de cobrar judicialmente as dívidas abrangidas e de adotar determinadas medidas contra os ativos do grupo.
O que a Braskem precisa fazerA empresa terá os 90 dias para negociar e buscar apoio suficiente ao plano definitivo.O objetivo é conquistar uma maioria simples dos créditos sujeitos para que o acordo possa vincular toda a dívida abrangida.
Plano definitivoA Braskem deve apresentar até 31 de agosto um plano de negócios atualizado e uma proposta comercial detalhada.Os credores terão uma visão mais concreta de como a empresa pretende reestruturar a dívida.
Negociação com credoresAté 9 de outubro, as partes devem buscar um acordo sobre as principais condições comerciais.Essa é a principal janela de negociação da reestruturação.
Dívida pode virar açõesO plano prevê a possibilidade de converter parte dos créditos em ações.Alguns credores poderiam deixar de receber parte da dívida em dinheiro e, em troca, se tornar acionistas.

O que muda com a recuperação extrajudicial

A recuperação extrajudicial prevê a reestruturação de cerca de US$ 10,9 bilhões em dívidas financeiras da Braskem e de cinco empresas do grupo no exterior. O plano estabelece as bases para uma negociação com os credores, que poderá envolver alongamento dos prazos de pagamento, capitalização de juros e um período inicial de alívio financeiro.

A recuperação extrajudicial da Braskem ocorre em paralelo à reestruturação de sua subsidiária no México, a Braskem Idesa, que entrou com pedido de recuperação judicial nos Estados Unidos, pelo chamado Chapter 11.

Esse mecanismo permite que uma empresa continue funcionando enquanto negocia a reorganização de suas dívidas sob supervisão da Justiça. O plano da Braskem prevê um aporte de US$ 476 milhões (R$ 2,427 bilhões) da companhia para manter o controle da subsidiária mexicana.

“Para os credores, esse momento é de negociação. Para os acionistas, é um período de atenção, porque uma reestruturação desse tamanho mostra que a empresa enfrenta uma pressão financeira, mas também pode representar uma oportunidade de recuperar a sustentabilidade do negócio no longo prazo”, conta Matheus Matos, sócio da MA7 Capital.

Por que a Braskem chegou à recuperação extrajudicial

A decisão é resultado da combinação de diferentes pressões financeiras enfrentadas pela companhia nos últimos anos. “Quando uma empresa acumula uma dívida muito elevada e percebe que precisa de novas condições para conseguir pagar seus compromissos, ela pode buscar uma recuperação”, explica Matos.

“[Na recuperação extrajudicial] a empresa busca construir um acordo diretamente com seus principais credores e utiliza a Justiça para dar segurança jurídica e validar esse entendimento”, reitera.

 

Um dos principais fatores são os custos relacionados ao desastre geológico em Maceió, provocado pela exploração de sal-gema. A atividade levou à instabilidade do solo em bairros da capital alagoana, provocando a retirada de moradores e a interdição de imóveis.

Mais de 14 mil imóveis foram desocupados e cerca de 60 mil pessoas foram afetadas. Desde então, a Braskem passou a desembolsar recursos para indenizações, auxílios e realocação de moradores e comerciantes.

A companhia já desembolsou mais de R$ 4,2 bilhões nessas medidas e mantém R$ 3,24 bilhões reservados no balanço para custos futuros relacionados ao desastre e às ações de reparação.

Outro fator foi a piora das condições do mercado petroquímico global. O setor passou por um período de aumento da produção, especialmente com a expansão da capacidade industrial da China. Com mais produtos disponíveis, os preços caíram enquanto o consumo perdeu força em diferentes regiões.

Esse cenário reduziu a rentabilidade das empresas do setor. O EBITDA recorrente da Braskem — indicador usado para medir a geração de caixa das operações — somou US$ 557 milhões (R$ 2,840 bilhões) em 2025, uma queda de 49% em relação ao ano anterior.

Dívida e pressão financeira

No fim de 2025, a dívida da Braskem, já descontado o dinheiro disponível em caixa, somava US$ 7,5 bilhões (R$ 38,25 bilhões). A relação entre a dívida e a geração de caixa chegou a 14,7 vezes.

Esse indicador é utilizado pelo mercado para avaliar a capacidade de uma empresa de pagar suas dívidas. Quanto maior a relação, maior tende a ser a preocupação de investidores e credores com a capacidade de pagamento.

As dificuldades também afetaram as ações da companhia. Os papéis da Braskem acumulavam queda de cerca de 82% desde o início da crise em Maceió, passando de R$ 42,05 em fevereiro de 2018 para R$ 7,51 em 18 de junho de 2026.

A Braskem Idesa também enfrentou dificuldades financeiras e deixou de pagar juros de títulos com vencimento em 2029 e 2032, situação que caracteriza um default, ou seja, o não cumprimento de uma obrigação de pagamento.

Mudança no controle

A situação financeira da Braskem também passou por uma mudança na estrutura de controle da companhia.

Em abril, a Novonor, antiga Odebrecht, assinou contrato para vender sua participação de controle ao fundo Shine I, assessorado pela gestora IG4 Capital. A operação envolveu cerca de 50,1% das ações com direito a voto da petroquímica.

A transação foi concluída em junho, quando a IG4 passou a dividir o controle da Braskem com a Petrobras.

A Petrobras detém cerca de 47% do capital votante e 36,1% do capital total da companhia. Já o fundo ligado à IG4 possui 50,1% do capital votante.

O que é a Braskem

Criada em 2002, a Braskem surgiu da integração de ativos da antiga Odebrecht, hoje Novonor, e do Grupo Mariani.

A empresa atua no setor químico e petroquímico e produz resinas termoplásticas, como polietileno, polipropileno e PVC. Esses materiais são usados como matéria-prima para a fabricação de embalagens, peças, tubos e diversos outros produtos.

A companhia também produz insumos químicos, como eteno, propeno, butadieno, benzeno e tolueno, utilizados por outras indústrias.

A Braskem possui operações em 11 países, mais de 8 mil funcionários, 39 unidades industriais, 14 escritórios comerciais e sete centros de inovação. A companhia atende clientes em mais de 70 países.

Em 2025, a empresa registrou R$ 70,7 bilhões em receita líquida. No segundo trimestre de 2026, teve receita de R$ 21,72 bilhões e lucro líquido de R$ 3,33 bilhões.

Mesmo com a melhora dos resultados no segundo trimestre, a companhia continua enfrentando um cenário de pressão financeira, marcado pelo alto endividamento, pelos efeitos do desastre em Maceió e pelas dificuldades do mercado petroquímico global.

Fonte: G1

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *