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A TODOS E A TODAS – 

Nas missas dominicais na capela da praia de Cotovelo, onde veraneio, o comentarista da celebração não se cansava de saudar os presentes com um efusivo Bom dia a todos e a todas! Aquilo tanto me agrediu os tímpanos, ao ponto de eu resolver lhe alertar acerca da incoerência de tal cumprimento matinal.

Ah, meus leitores, o apelo foi um caso de somenos importância, pois constatei que o vírus da discrepante agressão ao português já se espalhara pelo país bem antes de minha intervenção. Hoje é comum ouvirmos gente com alto grau de escolarização se dirigir a todos e a todas, como se todos não englobasse todas.

Trata-se de um descaso nacional com a língua pátria. Um modismo inconsequente que beira o ridículo. Imagino estarem troçando de minha inteligência quando deixam escapar um despropositado qualquer um ou qualquer uma… Na ânsia de exercitar o politicamente correto sem discriminação à mulher, confunde-se o gênero gramatical com o gênero sexual dando vez à chamada linguagem inclusiva.

Se não me falha a memória tal prática se iniciou no governo José Sarney (1985 – 1990), com a bizarra e não convincente expressão brasileiros e brasileiras. Pareceu-me que o falar correto voltara aos trilhos nos governos de Collor, Itamar e Fernando Henrique, mas, eis que surge a era Lula com seus companheiros e companheiras. Daí, para a não exclusão social foi um salto.

Agora, nada de chamar um negro de negro, fala-se, afrodescendente. Nada de apontar para um deficiente físico, mas, para um portador de necessidades especiais. Careca? Jamais! Diz-se, capilarmente diferenciado. Mesmo que eu queira nunca assumirei minha velhice explícita, pois estou sentenciado a conviver com a melhor idade.

Não sei quais as consequências nefastas desse linguajar no aprendizado da criança durante os nove anos do ensino fundamental, tampouco como os professores lidam para evitar que alunos utilizem de forma errada o pronome indefinido plural tema deste texto.

Deformar o idioma não é remédio para combater o racismo ou condenar a homofobia. É inegável a constatação da universalidade do gênero masculino dando uma conotação de machismo à cultura, todavia, nada que modifique ou auxilie no ataque as autênticas discriminações que tantos danos causam à sociedade. Uma coisa é certa: não será na linguística que harmonizaremos a falta de igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Como alguém já disse: trata-se de uma bobagem populista cujos cultores, por excelência, são os políticos. E eles exageraram tanto no modismo, que determinado parlamentar na ânsia de defender a chefe da nação prestes a perder o mandato em processo de impeachment, deixou escapar num efusivo exercício de retórica, esta pérola: …uma “presidenta inocenta” está sendo retirada do poder…

Contestemos, discursemos, debatamos ideias e propostas, mas sem abrir mão da linguagem clara, precisa e elegante que herdamos de nossos antepassados, embora já bastante modificada por tantas reformas ortográficas.

Ah, o comentarista citado no início desta matéria não repetiu o destempero gramatical. Hoje, os ouvidos de homens e mulheres frequentadores das missas na aconchegante capela, agradecem o retorno ao tradicional e palatável cumprimento Bom dia a todos!

José Narcelio Marques Sousa – Engenheiro civil e Escritor – [email protected]

As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradore

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