A VIDA É CASA ALUGADA: A BREVIDADE DA EXISTÊNCIA E O SENTIDO DAS NOSSAS AÇÕES –

Em tempos marcados pela correria, pela vaidade e pela ilusão de permanência, algumas obras artísticas surgem como verdadeiros convites à reflexão. É exatamente isso que transmite a música “A Vida é Casa Alugada”, do artista angolano Kakinda Do Seles, lançada em 2026 no álbum INQUILINO DA VIDA.

Mais do que uma composição musical, a canção se apresenta como uma metáfora profunda sobre a existência humana. Ao comparar a vida a uma “casa alugada”, a música desmonta silenciosamente uma das maiores ilusões do ser humano: a ideia de posse definitiva sobre o tempo, sobre os bens e até mesmo sobre as pessoas.

Na prática, ninguém é dono de nada. Somos apenas passageiros temporários de uma existência breve, limitada e imprevisível.

A metáfora utilizada na música é de uma inteligência rara. Quem mora em uma casa alugada sabe que, cedo ou tarde, precisará deixá-la. Não importa o quanto organize os móveis, pinte as paredes ou tente personalizar o ambiente; haverá um dia em que as chaves precisarão ser devolvidas.

Assim também é a vida.

O homem passa décadas acumulando patrimônios, disputando poder, alimentando orgulho e construindo conflitos desnecessários, esquecendo-se de que a permanência neste plano é apenas provisória. Muitos vivem como se fossem eternos, quando, na verdade, somos frágeis viajantes do tempo.

Talvez por isso exista tanta frustração humana. O indivíduo cria raízes excessivas em coisas temporárias e, quando a realidade da impermanência se apresenta, surgem o medo, a angústia e o vazio existencial.

A grande reflexão da música está justamente aí: se a vida é passageira, então o que realmente vale a pena deixar nela?

Não serão os carros, os cargos ou os títulos. O tempo encarrega-se de consumir tudo isso. O que permanece é a forma como tratamos as pessoas, o bem que fazemos, as palavras que oferecemos e as marcas humanas que deixamos nos corações.

A efemeridade da vida deveria tornar o ser humano mais humilde, mais tolerante e mais consciente das próprias atitudes. Porém, paradoxalmente, muitos escolhem o caminho oposto: cultivam rancores, arrogância, egoísmo e disputas pequenas, como se houvesse tempo infinito para reparar erros ou reconstruir relações destruídas.

E não há.

A vida surpreende diariamente. Ela interrompe projetos, muda destinos, silencia vozes e encerra histórias sem aviso prévio. Basta observar quantas pessoas saíram de casa acreditando no amanhã e jamais retornaram. Quantos sonhos ficaram inacabados. Quantas palavras importantes nunca foram ditas.

Por isso, talvez a maior sabedoria da existência seja compreender que viver não significa apenas respirar ou sobreviver. Viver é entender a responsabilidade moral das nossas ações enquanto estamos “hospedados” neste mundo.

Cada gesto humano possui consequência. Cada palavra pode ferir ou curar. Cada atitude pode construir pontes ou levantar muros. E, no final, é exatamente isso que definirá o verdadeiro valor da nossa passagem pela Terra.

A música de Kakinda Do Seles também provoca uma reflexão silenciosa sobre o desapego. O excesso de apego às coisas materiais frequentemente adoece a alma humana. Há pessoas que perdem a paz tentando possuir mais, aparecer mais ou vencer mais, esquecendo-se de que o tempo, esse senhor implacável, relativiza todas as conquistas.

O homem nasce sem possuir nada e parte levando apenas a memória das suas ações.

Talvez por isso os maiores patrimônios da vida não sejam financeiros, mas humanos: o respeito conquistado, a dignidade preservada, a solidariedade praticada e o amor distribuído ao longo da caminhada.

Quando a música afirma, ainda que poeticamente, que somos “inquilinos da vida”, ela nos lembra de algo que muitos evitam admitir: estamos apenas de passagem.

E reconhecer isso não deveria gerar tristeza, mas consciência.

Consciência de que precisamos amar mais, julgar menos, perdoar mais rápido, valorizar os encontros, cultivar amizades sinceras e compreender que a vida é curta demais para ser desperdiçada com guerras emocionais inúteis.

No fundo, a existência humana talvez seja exatamente isso: uma breve hospedagem entre o nascimento e a eternidade.

E, quando chegar o momento de devolvermos as chaves dessa “casa alugada”, restará apenas uma pergunta essencial:

Que tipo de presença fomos na vida das pessoas?

Porque, no final, não seremos lembrados pelo que acumulamos, mas pelo que deixamos dentro do coração humano.

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado, procurador aposentado e vereador em São Gonçalo do Amarante/RN

As opiniões contidas nos artigos/crônicas são de responsabilidade dos colaboradores

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