A VERDADEIRA VISÃO E A VERDADEIRA CEGUEIRA –
“E disse-lhe Jesus: Eu vim a este mundo para juízo, a fim de que os que não veem vejam, e os que veem sejam cegos.” (João 9:39)
Jesus acabara de restituir a visão a um homem cego de nascença. Admirados com o fato, seus discípulos perguntaram-Lhe: quem pecou para que aquele homem tivesse nascido cego, ele ou seus pais?
A própria pergunta revela que, entre muitos judeus daquele tempo, existia a compreensão de que o sofrimento poderia estar relacionado a faltas anteriores. Todavia, Jesus não alimenta a curiosidade acerca do passado do homem. Em vez disso, conduz os discípulos a uma verdade muito mais elevada: nem ele pecou, nem seus pais, mas aquela circunstância serviria para que as obras de Deus se manifestassem em sua vida.
Assim, o Mestre desfaz a falsa ideia de que todo sofrimento seja necessariamente um castigo divino ou o resgate direto de alguma culpa. Deus não age movido pelo desejo de punir, mas de conduzir cada criatura ao despertar da vida espiritual.
À primeira vista, porém, outra declaração de Jesus parece surpreendente:
“Eu vim a este mundo para juízo…”
Seria essa afirmação incompatível com o Cristo que veio salvar e não condenar?
A resposta está no verdadeiro sentido da palavra juízo.
Aqui, o juízo não representa uma sentença de condenação, mas a manifestação da Verdade que revela o íntimo de cada coração. A presença de Cristo torna impossível permanecer na indiferença. Sua Luz evidencia quem deseja sinceramente aprender e quem prefere permanecer aprisionado às próprias certezas.
Há, portanto, dois tipos de cegueira.
A primeira é a daquele que reconhece suas necessidades. É a cegueira da humildade, daquele que sabe que ainda necessita aprender, crescer e ser transformado. Esse coração encontra em Cristo a Luz que lhe abre os olhos da alma.
A segunda é muito mais perigosa: a cegueira daquele que acredita já enxergar plenamente. Convencido de possuir toda a verdade, fecha-se à Verdade viva. Seu conhecimento permanece apenas na inteligência, sem descer ao coração.
O homem que nascera cego recebeu muito mais do que a visão dos olhos. Ao reconhecer Jesus, sua alma começou a contemplar a Luz eterna.
Os fariseus, ao contrário, contemplavam essa mesma Luz e, ainda assim, permaneciam incapazes de reconhecê-la, porque seus olhos estavam obscurecidos pelo orgulho, pelo apego às interpretações humanas e pela vaidade de se julgarem mestres da Lei.
Por isso Jesus lhes respondeu:
“Também nós somos cegos?”
“Se fôsseis cegos, não teríeis pecado; mas como agora dizeis: Vemos; por isso o vosso pecado permanece.” (João 9:40-41)
Essas palavras encerram uma das mais profundas lições do Evangelho.
Deus não exige da criatura aquilo que ela ainda não é capaz de compreender. A ignorância sincera pode ser iluminada pela verdade. O coração humilde sempre pode aprender.
Entretanto, aquele que já recebeu a luz, ainda que parcialmente, torna-se responsável pelo uso que faz dela. Quanto maior a compreensão, maior também o compromisso de viver segundo essa compreensão.
Os fariseus conheciam as Escrituras, mas haviam transformado a religião em prestígio, poder e aparência. Ensinavam a Lei, porém muitas vezes deixavam de vivê-la em seu espírito. Exigiam dos outros pesos que eles próprios não carregavam, valorizando mais os rituais do que a misericórdia, mais a letra do que o amor.
Por isso, a verdadeira cegueira não era a do homem privado da visão física, mas a daqueles que, vendo com os olhos do corpo e conhecendo as palavras da Lei, permaneciam incapazes de reconhecer a presença do próprio Verbo de Deus diante deles.
Essa passagem permanece viva em todos os tempos.
Sempre que alguém reconhece sua pobreza espiritual, abre espaço para que Cristo lhe conceda nova visão. Mas sempre que o orgulho afirma: “eu não tenho mais o que aprender”, a porta da alma se fecha à ação da Luz.
O juízo de Cristo continua acontecendo silenciosamente no íntimo de cada ser humano. Não porque Ele condene alguém, mas porque Sua presença revela aquilo que realmente somos.
A humildade transforma a cegueira em visão.
O orgulho transforma a luz em trevas.
Por isso, bem-aventurado não é aquele que imagina enxergar todas as coisas, mas aquele que, reconhecendo sua própria limitação, permite que Cristo lhe abra continuamente os olhos do espírito, até que toda a sua vida seja iluminada pela Verdade, pelo Amor e pela perfeita vontade do Pai.
Amém!
Arca da Sagrada Aliança – Movimento Cristão
