A TRILHA, A BIFURCAÇÃO, AS PEGADAS ERRADAS E VOZES CERTAS –

Perder-me em uma trilha, no meio de um grupo, não foi somente errar um caminho: foi ser devolvida, ainda que por instantes, à verdade mais antiga da existência humana: a de que viver é caminhar entre bifurcações sem garantias. E que angústias tem poder pedagógico. O que se passou em um retorno de passeio à cachoeira não foi apenas um desencontro geográfico: Foi a aparição de uma cena reflexiva, o momento em que o grupo se desfaz como proteção simbólica, o cansaço dissolve a prudência, e eu me vejo entregue à tarefa de distinguir entre rastro e rumo, entre saída e destino, entre movimento e direção.

Na ida, ainda havia uma espécie de pacto silencioso sustentando a travessia. O corpo, não tendo sofrido o peso do trajeto, permitia à mente exercer aquilo que a civilização exige de nós: pausa, espera, consideração pelo outro, capacidade de reter o impulso em favor do laço. Diante de cada bifurcação, quando se sabia o caminho, alguém esperava, olhava para trás, cuidava para que o restante acompanhasse. A trilha era, então, uma comunidade. Havia nela um tecido de atenção recíproca e o cansaço ainda não havia corroído a delicada camada ética que nos faz lembrar que ninguém caminha sozinho, mesmo quando cada um usa as próprias pernas. E ainda que estivessem presentes dois guias (altamente responsáveis), um estava na frente, outro atrás, mas ao meio haviam bifurcações. E o grupo não tinha o mesmo ritmo em um longo trajeto cheio de curvas.

Mas a volta introduziu outra verdade, menos nobre e mais funda: quando o corpo se esgota, a consciência se estreita. Já havíamos tomado banho de cachoeira, estávamos cansados de toda a caminhada, e o desejo de chegar logo em casa passou a comandar os passos. Aquilo que antes era grupo se tornou fluxo. O era convivência se tornou pressa. E justamente nesse ponto, uma bifurcação deixou de ser apenas uma escolha espacial para se converter num teste moral: quem vê o desvio e segue mesmo assim, sem pensar nos que podem ficar para trás, revela algo da condição humana quando a energia simbólica se rompe. Não se trata necessariamente de maldade: trata-se de um empobrecimento da presença. Cansados, diminuímos. Recolhemos nossas fronteiras, contraímos nossa generosidade, protegemos nosso próprio retorno como se toda alteridade fosse peso extra.

Foi nesse rasgo da trama coletiva que eu me perdi com minha mãe. E o fato dela ter 63 anos, já considerada idosa, intensificava o núcleo dramático da cena. Porque ali eu não perdia apenas o caminho: perdia, por um instante, a segurança de quem precisava responder por outro corpo, por outro ritmo, por outra vulnerabilidade. Ao chegarmos a uma estrada que era, de fato, uma saída, mas não a saída correta, emergiu uma das ironias mais brutais da vida interior: nem toda saída é salvação. Há saídas que apenas formalizam o erro. Há portas que se abrem, mas não devolvem ninguém para casa. O excesso de pegadas no chão funcionou como funcionam tantas evidências psíquicas: parecem prova, mas são apenas sedução do visível. Seguir o maior número de marcas não é o mesmo que seguir o próprio destino. A massa deixa rastros, mas não necessariamente orientação. Aquelas pegadas eram de um grupo que, naquele momento, não era o meu.

Em termos psicanalíticos, eu diria que a situação turbulenta forçou uma reorganização da escuta interna: Quando o grupo grande deixou de funcionar como garantia, precisei construir, em mim mesma, um outro tipo de eixo. E esse eixo não veio da certeza, mas da sensibilidade. Há algo de muito profundo nisso: frequentemente só nos reencontramos quando perdemos a ilusão de que o caminho é dado de fora em forma de evidência. O reencontro nasce quando somos obrigados a discriminar, em meio ao excesso, aquilo que realmente nos chama.

Quando eu perco o fio externo, algo interno pode enfim começar a escutar. Em vez de acelerar, passei a notar detalhes: o som, as pegadas, a diferença entre os rastros, o quase nada das vozes ao longe. Perder-me fez nascer uma forma aguda de atenção. Como se o desencontro com o grupo tivesse reativado uma faculdade mais antiga, mais fina, talvez mais verdadeira: a de perceber sinais mínimos. Na vida ordinária, a abundância nos embota. Quando tudo fala, nada diz. Quando há vozes demais, o essencial se mistura ao ruído. Mas quando estamos à beira do erro, quando a realidade se torna precária, um sussurro volta a valer mais do que um coro. Eu consegui reencontrar o grupo não pela força, nem pela velocidade, nem pela autoridade, mas por essa escuta delicada do vestígio correto, após me desencontrar pelo vestígio errado.

Talvez por isso essa experiência tenha me revelado algo tão precioso: muita gente não significa mais amparo. Ao contrário, muitas vezes a multidão dispersa a responsabilidade, dilui o cuidado, multiplica as vozes e torna mais difícil distinguir a direção justa. Existe uma solidão específica que só aparece no meio de muita gente. E existe, em contrapartida, um pertencimento raro que nasce da proximidade com poucos. Não “qualquer poucos”, mas aqueles que conhecem a trilha, aqueles cuja presença não me confunde, aqueles que, em vez de produzir excitação, produzem eixo. Há pessoas que nos fazem andar, há outras que nos fazem chegar. A diferença entre umas e outras é toda a diferença entre circulação e destino.

Meu relato, então, toca um ponto muito íntimo da existência: para que eu não me perca, não basta desejar avançar: é preciso escolher de quem fico perto. Essa é uma verdade afetiva, ética, quiçá espiritual. O ser humano não se orienta apenas por inteligência individual, mas pela qualidade das presenças que aceita como vizinhança.

No fim, o episódio da trilha parece ensinar que o extravio não é somente uma ameaça: ele é também uma revelação. Quando tudo se rompe: o grupo, a previsibilidade, a confiança imediata no percurso, resta saber o que, em mim, ainda sabe ouvir. Resta saber se sigo o excesso de pegadas ou a quase inaudível voz certa. Resta saber se escolho a saída mais próxima ou o caminho que realmente me devolve ao meu lugar. Perder-me, nesse sentido, não é o contrário de encontrar-me. Às vezes, é a única condição para descobrir que a verdadeira orientação nunca esteve na quantidade de movimentos ao redor, mas na fidelidade a poucos sinais essenciais.

E, talvez, seja isso o mais belo e o mais grave que essa experiência me disse: a vida não pede que eu ande com muitos, pede que eu saiba reconhecer quem, entre os muitos, realmente me guia. Porque voltar ao prumo, à realidade, à parte mais íntegra de mim mesma, não depende de seguir a multidão. Depende de conservar, mesmo no cansaço e no medo, a sensibilidade para escutar as vozes certas.

 

 

Tatyanny Souza do Nascimento – Psicanalista e escritora

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