A SALADA –
Saímos para almoçar às três da tarde. Na verdade, eu gostaria de comer uma fatia de torta com muito recheio ou uma cartola com bastante açúcar por cima. Na verdade-verdadeira, enrolei até mais tarde para sairmos exatamente no intuito de substituir o almoço por um “cafezinho de boas” sem deixar rastros de que era isso que eu queria.
Sei que meu paladar infantil ficaria muito mais feliz, mas a consciência pesou e os olhos de julgamento do marido demonstraram que ele sacou minha estratégia. Uma vez ele passou três dias viajando e eu passei três dias comendo pipoca. Foi uma delícia! Pipoca com sal e manteiga. Pipoca com lemon pepper. Pipoca com leite condensado e Nescau. Pipoca com leite em pó. Criei muitas possibilidades…
Foi por isso que pedi uma salada com filé e pedaços de gorgonzola. Pelo peso na consciência, pelo olhar dele e por lembrar do sermão da médica sobre minhas substituições de almoço por “refeições vazias de proteínas e elementos saudáveis”.
Começo a comer e parece que as folhas de alface se multiplicam no meu prato. Mastigo, mastigo e mais folhas verdes surgem. Continuo mastigando e sinto o cansaço dos músculos masseteres. Devo salientar que amo saladas – menos que tortas ou pipoca – mas o tamanho do prato foi de assustar. Então, depois de uma meia hora comendo minha salada até o prato ficar vazio e a barriga estufada, fiquei me questionando como as vacas engordam comendo só grama.
Sinceramente, para mim é um mistério…
Levantei da mesa com a consciência limpa, a barriga cheia e os músculos da face pedindo um analgésico. A médica ficará orgulhosa, o marido dormirá em paz e eu saí dali convencida de que ser adulta dá um trabalho danado.
Bárbara Seabra – Autora de “O diário de uma gordinha”, “A janela do isolamento” e “Não me lembro” e Escritora
