A MUDANÇA NÃO ESTÁ APENAS NOS NOMES, MAS NA FORMA DE FAZER POLÍTICA –

Toda eleição traz consigo uma palavra que exerce enorme força sobre o eleitor: MUDANÇAS.

Passadas as urnas, sobretudo quando o resultado revela insatisfação, o crescimento de novas forças ou o enfraquecimento de grupos tradicionais, é natural que candidatos e partidos procurem interpretar a mensagem deixada pela população. Uns falam em continuidade; outros, em renovação. E há também aqueles que, mesmo pertencendo a estruturas políticas já conhecidas, passam a adotar o discurso da mudança.

Talvez, porém, a pergunta mais importante não seja quem representa a mudança, mas o que, de fato, significa mudar.

Na política, trocar nomes não significa, necessariamente, transformar práticas. Do mesmo modo, permanecer em determinado grupo político não obriga ninguém a repetir todos os seus erros. É como trocar o motorista sem consertar o carro: a viagem pode continuar com os mesmos problemas. A verdadeira renovação precisa aparecer nas atitudes, no comportamento democrático, na capacidade de dialogar e, acima de tudo, na disposição de reconhecer aquilo que a sociedade expressou nas urnas.

O eleitor de hoje parece cada vez menos disposto a assinar um cheque em branco. Ele pode votar em um candidato sem concordar inteiramente com o seu partido. Pode rejeitar um grupo sem, por isso, aderir ao outro. Pode escolher alguém por confiança pessoal, por identificação com certas propostas ou simplesmente pelo desejo de experimentar um caminho diferente.

E é exatamente aí que está uma das maiores lições das urnas: nenhum político é dono definitivo do voto que recebeu. O voto é um empréstimo de confiança, e não um título de propriedade.

Quando um candidato, depois do primeiro turno, se apresenta como representante da mudança, assume também uma grande responsabilidade. A palavra “mudança” gera expectativas, e expectativa política só se sustenta quando o discurso encontra correspondência na prática.

Mudar é saber ouvir quem pensa diferente. É trocar a agressividade pelo debate. É compreender que adversário não precisa ser inimigo. É defender as instituições sem transformá-las em instrumentos de conveniência. É combater privilégios, exigir transparência e lembrar que o poder pertence aos eleitos apenas temporariamente, mas ao povo, permanentemente.

Há ainda outra reflexão necessária. A mudança que o eleitor deseja talvez não seja simplesmente sair da direita para a esquerda, ou da esquerda para a direita. Muitas vezes, o cidadão está cansado justamente dessa guerra permanente, que transforma qualquer discussão pública em uma disputa entre dois lados irreconciliáveis.

É possível que boa parte da sociedade esteja buscando algo ao mesmo tempo simples e difícil: eficiência, segurança, emprego, saúde, educação, respeito às instituições e tranquilidade para viver. Coisas do dia a dia, que pesam mais na mesa de uma família do que qualquer rótulo ideológico.

Por isso, toda liderança que pretenda interpretar o sentimento das urnas deveria fazê-lo com humildade. O resultado eleitoral não serve apenas para apontar vencedores e derrotados. Serve, também, para que todos, inclusive quem venceu, se perguntem com sinceridade: o que o eleitor está tentando nos dizer?

A democracia amadurece quando a política deixa de enxergar cada eleição como uma guerra de extermínio e passa a compreendê-la como aquilo que ela realmente é: uma oportunidade periódica de a sociedade corrigir rumos.

No fim das contas, a verdadeira mudança não será definida pelo sobrenome de quem governa, pela legenda que ocupa o poder ou pelo slogan mais eficiente de uma campanha.

A mudança verdadeira acontece quando muda a maneira de exercer o poder.

Afinal, novos personagens podem repetir velhas práticas. E pessoas conhecidas podem, se realmente compreenderem a mensagem das urnas, trilhar novos caminhos.

O tempo, e sobretudo as atitudes, dirá quem apenas falou em mudança e quem teve, de fato, a coragem de praticá-la.

 

 

Raimundo Mendes Alves – Advogado, procurador aposentado e vereador em São Gonçalo do Amarante/RN

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