A ERA DO DESCARTÁVEL E O DESASSOSSEGO DE SERHUMANO –
Estava lendo o artigo do meu marido, João Dantas, quando uma onda desconfortável de constatações me atingiu com um raio, ele falava da pressa que mata, da tragédia que passa batida, do trânsito que vira campo de batalha. Mas, ao fechar a página, meu pensamento acabou descendo por uma ribanceira um pouco mais larga, do tipo que parecemos estar deslizando suavemente, e, quase sem perceber, nos enlameando com a tal da modernidade líquida.
Zygmunt Bauman, se estivesse aqui, puxaria o tamborete, tomaria um café comendo pão francês e queijo coalho conosco e prosearia sobre vários aspectos da nossa vida moderna, gosto de pensar assim. De fato, tudo em volta parece ter sido desenhado com prazo de validade curto. As relações são líquidas, os afetos são voláteis, e até os objetos da casa parecem ter herdado essa urgência de ir embora. Compramos uma televisão e, exatamente um ano depois ela pifou, aí descobrimos que a peça de reposição custava mais cara que uma TV nova, simples assim.
Pois bem, nem os eletrodomésticos escapam dessa filosofia. Meu robô aspirador inteligente, coitado, provou ser muito mais esperto do que eu. Com pouco mais de um mês enfrentando o serviço pesado do cotidiano, tratou logo de enguiçar. Pensando bem, sob a ótica da exploração do trabalho, até que ele reagiu com certa lucidez, preferiu o repouso absoluto a continuar rodando em círculos.
E a gente, como fica nessa história? Também aprendemos a pifar mais rápido, desistimos de amizades porque estamos sem saco, trocamos de amores como quem troca de capa de celular. Apagamos conversas, arquivamos gente, virou mais fácil descartar do que consertar. Mais fácil começar do zero do que remendar o que já tem história, estamos sempre atrás das novas aquisições, de novas paixões para taparem os buracos da própria vida, e o pior, fomos nós mesmos quem estipulou que o conserto é caro demais, não vale a pena, aí seguimos para a próxima liquidez.
Brincadeiras e ironias da vida moderna à parte, o diagnóstico é doloroso. Percorremos os dias com uma ligeireza assustadora, passamos pelas pessoas sem olhá-las nos olhos, cruzamos com o mar sem sentir a brisa, encaramos o sol, as árvores e as flores como se fossem apenas o cenário estático de uma tela de celular. Estamos perdendo a capacidade de nos impressionar, de nos demorar, de sentir. A sensibilidade virou artigo de luxo, e o amor ao próximo, um conceito quase anacrônico.
A pergunta que me martela o peito é: até onde vai essa anestesia? Estamos realmente fadados a viver os próximos tempos totalmente isentos daqueles sentimentos que, no fim das contas, são os únicos que nos tornam humanos?
Se nada acontecer para estancar essa fluidez desenfreada, o futuro corre o risco de ser um grande deserto de afetos rasos. Precisamos, com urgência, resgatar a coragem de desacelerar, travar a roda, exigir tempos mais sólidos, laços duradouros e escolhas concretas. Afinal, uma vida que não deixa marcas profundas por onde passa não é liquidez, é apenas evaporação.
Flávia Arruda – Pedagoga e escritora, autora dos livros As Esquinas da minha Existência e As Flávias que Habitam em Mim.crô[email protected]
