A DIVINA COMÉDIA VISTA DE NATAL –

Nos 700 anos da morte de Dante Alighieri, o mundo intelectual festeja a sua obra. Não hesito em afirmar que, dentre os peritos literários, ele foi o favorito de Câmara Cascudo. O Mestre de Natal foi o primeiro tradutor de Walt Whitman, traduziu Montaigne e, para seu deleite, Shakespeare e Goethe. Apresentou e anotou Miguel de Cervantes e Luis de Camões.

“Dante Alighieri e Tradição Popular no Brasil” é paciente pesquisa sobre a criação desse homem de todos os tempos, conservando vivo em nossos hábitos, nossos gestos, em nossas palavras, segundo a expressão de Franco Jasiello, prefaciador da 2ª edição. Para Franco, o gênio atlântico e alísio tinha a primazia da intimidade com o gênio de Florença.

Imagine a minha emoção ao receber o exemplar, que assegura eu estarinteiro e vivo no seu coração”. Sob a dedicatória, a assinatura de Luis da Câmara Cascudo.

Para Cascudo, Dante Alighieri é uma síntese genial da cultura erudita e da cultura popular. Tinha todo o conhecimento científico, filosófico e teológico da Idade Média. Também religioso, o etnógrafo do Brasil registrou a presença entre nós da consciência religiosa medieval.

A Comédia, denominada Divina por Boccacio, aborda o destino das almas: inferno, purgatório e paraíso. Nos dois primeiros, Dante é levado pela mão do poeta Virgílio. No paraíso, foi guiado por sua amada Beatriz (Virgílio não poderia entrar no céu por não ser cristão).

Dante, médico-enfermeiro, participou da política de Florença, integrando o grupo dos Gibelinos que propunha a limitação dos poderes dos papas. Os Guelfos, vitoriosos, condenaram o poeta ao exílio e à morte se voltasse à Florença. Assim, ele se refugiou em várias comunidades e terminou a sua vida em Ravena, que guarda como um tesouro os seus restos mortais.

Cascudo anota a curiosidade de que o sumo poeta vislumbrou três papas no inferno: Nicolau III, Bonifácio VIII e Clemente V. Mereceram o suplício eterno pelo desrespeito à função sagrada, vendendo o que seria destinado ao culto.

Câmara Cascudo observa a permanência, no Brasil, da Estrela do Destino, Lúcia (que entre nós é Santa Luzia) e ainda do golfinho, o boto que amava e seduzia até os rapazes, fingindo-se de moça.

As observações do nosso Mestre atingem limites não suspeitados. Registra a afirmação de Dante de que “o amor move o sol e as outras estrelas”. Destaca, também, que Dante encontrou poucas mulheres no inferno, raras no purgatório, mas muitíssimas no paraíso.

Em nosso tempo, é imprescindível ler os dantistas excelentes, como Marco Lucchesi, e reler a “Divina Comédia”, usufruindo dos seus cinco cantos e dos seus tercetos encadeados.

 

 

 

 

Diogenes da Cunha Lima – Advogado, Poeta e Presidente da Academia de Letras do RN

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