Um antigo e muito bem conceituado médico de Natal, me contou que, certa noite estava de plantão em um hospital público desta capital e, casualmente, passou pelo corredor. Deparou-se, então, com um paciente, que tinha saído da enfermaria e estava sentado em um batente, falando sozinho.
O simpático médico perguntou ao interno:
– Perdeu o sono, amigo? Por que não está em seu leito, dentro da enfermaria?
Ao ver o médico, o homem ficou encabulado e quis justificar o motivo da sua insônia:
– Boa noite, doutor! Perdi o sono e estou aqui pensando na vida.
– Pra viver bem, todo homem tem que ter compreensão! É a coisa mais importante desse mundo!”
O Médico, curioso, indagou:
– O que foi que houve, para o senhor estar pensando nisso agora?
O paciente respondeu:
– Escute minha história, doutor! No mês passado me dirigi à Rodoviária, à tarde. Ia viajar para Caruaru, onde compro mercadoria para revender. Houve um engarrafamento no trânsito e eu perdi o ônibus. A viagem ficou para o dia seguinte. Aproveitei para resolver umas coisas no Alecrim e só cheguei em casa à noite, sem minha mulher esperar. Abri a porta com a minha chave e ouvi conversa no nosso quarto. Entrei sem fazer zoada e quis fazer um susto a Zefinha. Mas quem teve o susto fui eu! Encontrei minha mulher abraçada e se beijando com uma lapa de moreno, até bonito. Gritei com muita raiva:
– OXENTE! Que marmota é essa, Zefinha? Perdi o ônibus e quando chego em casa encontro você me chifrando desse jeito?!!!
Muito nervosa, minha mulher respondeu:
– “Ômi”, você não saiu dizendo que só voltava amanhã?!!! Mas não é nada disso que você está pensando!!! Deixa eu explicar, Manoel! Este rapaz é meu primo e chegou ontem do Rio de Janeiro, onde mora. Veio hoje aqui me visitar, de surpresa. Pediu pra descansar um pouco e eu ofereci a nossa cama. A gente estava só conversando sobre problemas de família. Ele estava contando as novidades da família lá no Rio. Ele é muito delicado e sempre gostou muito de mim. Sou a prima preferida dele. Estava me abraçando e beijando com muito respeito!
E o paciente continuou sua história:
– Olhe, doutor: Sou um homem muito compreensivo e entendi logo aquilo que eu estava vendo na minha frente. Minha mulher e o primo dela estavam só conversando sobre assuntos de família! E em assuntos da família dela, eu não me meto. Então, eu disse pra ela:
– Minha filha, como se trata de problemas de família, eu vou ali na rua e vou deixar vocês à vontade. Mais tarde, eu volto. Fique aí conversando com seu primo e botando os assuntos da família em dia! Como é mesmo a graça dele?
– Carcará! – respondeu Zefinha.
– Só voltei de madrugada, doutor, e dormi no sofá. Minha cama continuava ocupada. O primo de Zefinha devia estar muito cansado, pra dormir daquele jeito!!! Eu vou lá me meter em assunto de família!!!
Mas, fiquei contrariado, quando Zefinha me disse que precisava fazer uma viagem com o primo, por poucos dias. Como sou compreensivo, mesmo contrariado, não disse que era contra a viagem dela. Os dois viajaram, e eu adoeci, precisando me hospitalizar.
Tudo isso porque sou bom e compreensivo.
Como ninguém é de ferro, ao ver Zefinha viajar com o primo, o sangue me subiu à cabeça, e terminei aqui neste hospital, com crise de hipertensão.
Violante Pimentel – Escritora
