SENNAS DA ARGENTINA –

Atualmente, aventuro-me a assistir ao basquete da NBA ou mesmo ao futebol americano. Aprendi a curtir estes esportes! Coisas que o casamento nos ensina… Um entrelaçado de gostos e vivências, músicas, filmes, livros, esportes… Nunca fui ligada em esportes, ao contrário de Flávio… Gostava de assistir ao vôlei masculino ou ginástica olímpica feminina. E só! No entanto, as corridas de fórmula um… Mesmo sem ficar diante da TV, como não querer ver a largada e os gritos de Galvão Bueno ao final: “Ayrton… Ayrton… Ayrton Senna do Brasil!”? Fazia parte dos nossos domingos. Tradição brasileira… Uníamos ao redor de uma bandeira, formávamos uma multidão animada por ser representada por ele, nosso Ayrton.

Lembro de sair com mamãe para comprar o galeto do almoço de domingo. Sentamos em uma mesa aguardando nosso pedido, enquanto conversávamos banalidades. Eu balançava a chave do carro como uma forma de distração. Alguns senhores, de bermudas, camisas polo e sandálias Rider, sentados numa mesa próximo à TV de tubo longo 14 polegadas, conversavam animados tomando uma cerveja naqueles copinhos curtos. Nós duas dividíamos uma Coca-Cola.

– Se chover, ele ganhará certamente.

Falavam de Ayrton. Era o assunto das manhãs de domingo. Torcíamos pela chuva e, com ela, sua vitória. Não tinha outro melhor que ele. De repente, ouço o silêncio das vozes e o barulho das cadeiras se afastando. Eles levantaram em grupo e se aproximaram daquele pequeno aparelho de TV. Senti meu coração acelerando ao ouvir os comentários: foi o carro dele. Levantei-me também e aguardei que ele fizesse o mesmo diante de toda uma população incrédula. Ele não se levantou…

Saímos de lá atordoadas, carregando um almoço amargo que não estava previsto. Algum tempo depois, enfim, soubemos que ele partiu. Dias de reportagens, entrevistas, culpas de lá e de cá, pessoas anônimas chorando. Eu também chorava. Doeu. A morte dói…

Esta semana vi uma Argentina em lágrimas. Um mar de Maradona inundando uma Casa Rosada com cores apagadas. A Plaza de Mayo encoberta de dor, sem um pedacinho de chão aparecendo. Um tapete humano de tristeza… Tão iguais a nós…

Imediatamente a memória me carregou para aquela cena do Senna, onde os brasileiros se uniram em dor. A dor nos une… A alegria não. Não é irônico isso?

A memória nos prega peças. Um cheiro, um sabor, um som nos carregam para um passado as vezes esquecido ou encoberto por camadas de poeiras que vão sendo sopradas para longe ao serem acordadas e… sentimos tudo novamente.

Esta semana perdemos um amigo. O coração apertou e tentei cobrir a ferida com panos quentes. A gente tenta… Então, Flávio começa a cantar a canção de Padre Zezinho que cantávamos em nossos terços semanais que foram impedidos pela pandemia. Ave Maria, Mãe de Jesus. O tempo passa, não volta mais…

A poeira voou… A ferida abriu… A dor se instalou… Não importa se é um ídolo, um amigo, um herói… A dor da partida é sentida… É sofrida… Entre Sennas, Maradonas e Francos nós ficamos vivendo com as memórias…

 

 

Bárbara Seabra – Cirurgiã-dentista, Professora universitária e Escritora

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