LENDAS E VERDADES NA INTERNET – Armando Negreiros



LENDAS E VERDADES NA INTERNET –

Determinadas explicações surgem na Internet e muitas vezes pensamos que é verdade, pois são muito bem fundamentadas. Resolvi pesquisar algumas que, confesso, pensei que eram fatos incontestáveis. Realmente a criatividade humana não tem limites. A maioria ou é apócrifa, ou é atribuída a alguma fonte, indevidamente. Vamos iniciar com uma lenda e a seguir uma verdade.

A aguardente, a pinga e a cachaça

O que foi divulgado na Internet:

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse. Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou! O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor.

No dia seguinte, encontraram o melado azedo (fermentado). Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o “azedo” do melado antigo era álcool, que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente, era a cachaça já formada que pingava, por isso o nome (PINGA).

Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de ÁGUA ARDENTE. Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo. Hoje, como todos sabem, a AGUARDENTE é símbolo nacional!

Vejamos o comentário de Sérgio Rodrigues no blog “Sobre palavras” em Veja.com: “A versão exala um bafo de falsidade perceptível a quilômetros de distância. Desmascará-la é um serviço de utilidade pública, e não apenas em nome da etimologia.

Além de ridículo, o textinho é apócrifo. A maioria das páginas em que aparece o atribuem ao Museu do Homem do Nordeste, do Recife, mas isso é mais uma de suas mentiras. Comecemos pelas inconsistências históricas. A aguardente (coisa e palavra) já existia quando se começou a fabricar cachaça no Brasil. A data precisa é incerta, mas, embora a destilação já fosse conhecida na antiguidade, pesquisas situam o início da destilação de álcool em torno do século XII. Se havia a aqua vitae, ‘água da vida’, como os alquimistas a chamavam, a palavra aguardente não ficava muito atrás: por mais que se aprecie a contribuição nacional a tal cultura, o fato é que seu surgimento deve tanto à cana-de-açúcar quanto a invenção da televisão deve a Roberto Marinho.

Os primeiros registros do vocábulo aguardente em português datam do século XV, antes de Cabral pisar aqui. Em espanhol, aguardiente era termo usado desde 1406. Até hoje um dicionário como o da Academia das Ciências de Lisboa informa que essa bebida é obtida pela ‘destilação do vinho, do bagaço de uvas, de cereais, ou de outro produto vegetal doce’. Nossa cana não ganha nem citação nominal, ofuscada pela bagaceira.

O latim medieval aqua vitae, que teve descendentes em diversos idiomas, pode ter tido uma participação na formação do vocábulo, mas o sentido literal de aguardente está mais próximo do holandês vuurwater, ‘água de fogo’. O fato é que a ligação entre álcool e água aparece em inúmeras culturas (vodca e uísque também compartilham essa ideia), o que torna difícil dizer como começou.

Já a pinga, outra palavra cuja etimologia o texto finge iluminar, surgiu muito tempo depois, registrada pela primeira vez em 1813. A princípio tinha a acepção de ‘gole, trago’ – por meio da ideia de algo que apenas se pinga no copo, em pequeno volume – e só depois, por extensão, virou sinônimo de cachaça.

Curiosamente, a etimologia da própria palavra cachaça, termo existente desde o século XVII, destaca-se nessa bobajada pela ausência, o que é um bom pretexto para passarmos ao largo dela: uma das mais obscuras de nossa língua, o cipoal de teses antagônicas que os estudiosos lhe dedicam precisaria de uma coluna à parte para começar a ser enfrentado.”

Origem do termo DOUTOR

O amigo Júlio Cesar Andrade mandou-me o seguinte texto: Por que médico é doutor? Um amigo meu estava comentando o fato de médicos usarem o termo DOUTOR sem ter doutorado, achando isso um absurdo. Vendo os seus argumentos notei que ele e muita gente não conhece a origem do termo.

O termo DOUTOR vem do latim docere (ensinar). No fim do estudo universitário na Idade Média, de acordo com as tradições da Escolástica, obtinha-se a licença para ensinar (licentia doscendi), originalmente exclusiva da igreja. Assim, depois da conclusão de um curso universitário, o graduado se intitulava DOUTOR e tinha o direito de ensinar na Academia. Até então a profissão de médico era aprendida de maneira informal e os termos iátros ou medicus eram encontrados na literatura.

No ano de 1221 o Imperador Frederico II, da Itália, declarou que ninguém poderia se tornar médico sem ser examinado publicamente pelos mestres de Salerno. Era um curso de cinco anos e, como de praxe na época, os laureados recebiam o título de DOUTOR MEDICINAE.

 A partir daí o termo DOUTOR começou a ser usado para designar médicos. É uma relação histórica, que data da incorporação da medicina à universidade. Há 900 anos se usa o termo Doutor em Medicina para o graduado em medicina. Só no século XIX, que o termo DOUTOR começou a designar os portadores de doutorado. … Portanto os médicos são chamados de DOUTORES desde antes da existência do doutorado!!!

 

 

 

Armando Negreiros – Médico e Escritor
 As opiniões contidas nos artigos são de responsabilidade dos colaboradores

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