DE ZORRA ZAMBEMBE – José Delfino



DE ZORRA ZAMBEMBE –

Na prática, é difícil arquitetar o nosso próprio destino. Por acaso a gente vem, vê , e com muita persistência e alguma sorte, faz conquistas. Muitas variáveis fogem de controle. Viver a vida perigosamente não se quer, mas é inevitável. O presente é a incógnita que sempre se confunde e se mistura como o passado imediato se avizinhando; para onde já está indo este início de texto, assinalado por linhas e pontos, onde apenas tento desenvolver ideias, mesmo que de forma aleatória.

E o futuro? Em princípio, uma ameaça. Numa sociedade fragmentada e disforme que sobrevive e se confronta; e pensa de forma pouco nítida permitindo dar à incerteza respostas mal pensadas, fruto da revolta. Sobrevivência, insisto , com algum resquício de dignidade, o que a maioria da população, nem isto consegue. A minoria radical no poder em eterno faz de conta, revelando, de forma clamorosa, o objetivo único: a ridícula aventura vivida exclusivamente em usufruto próprio.

Egoísmo inserido em desonestidade afoita, a mais forte expressão deste individualismo torpe e rasteiro que complica a complexidade de se tomar decisões; que confunde balizas, paradigmas e as propostas que deveriam ser expostas de forma bem transparentes pelo menos em anos de eleição; e os que tentam proceder de tal maneira, o fazem com um misto de amadorismo, arrogância e demagogia que me assustam.

Por isso não vejo com bons olhos e nem dou trela a heróis de ocasião. Prefiro o mundo fictício dos anti-heróis, seus atos e fantasias a subverterem a ordem instituída. Os exércitos dos Brancaleones, os Quixotes, os Sancho Panças, os Tom Rypleys, que apontam para as feridas, na prática nada resolvem, mas me fazem bem, pois de resto, e ao menos, me emocionam.

Mas o outro lado da moeda existe. Eram duas horas da manhã , bem no início dos anos setenta , quando recebi uma ligação telefônica do hospital da Polícia. Passaram a ligação para o interessado que se identificou como Vulpiano (não liguei o nome à pessoa). Me disse ele que iria operar um abdome agudo por conta de uma apendicite rota e supurada já há bastante tempo e parecia que não existia um anestesista na cidade disponível pra tocar o procedimento. Para lá me dirigi. Nos apresentamos. E descascamos nós dois o abacaxi e resolvemos o pepino (ele só e sem auxiliar).

Fiquei um tanto constrangido em perguntar se ele era o “Dr. Vulpiano”. Durante a cirurgia só conversamos amenidades, o que fazia sentido. Ficou-me a impressão de um cara culto, inteligente, educado e extremamente doce. Ao sairmos do hospital, na portaria, um oficial fardado se aproximou e ele, Vulpiano, levantou o braço e espalmou a mão como a dizer “pare, não há necessidade, posso ir só”. Achei a situação um tanto bizarra. Cruzamos a porta de saída e ele se dirigiu em direção ao quartel da Polícia, ao fundo. Perguntei se ele estava de carro, se queria uma carona pra casa. Ele, com um sorriso bem calmo e maroto disse, Não, Dr. Delfino, estou hóspede deles de novo, muito obrigado. E seguiu o seu caminho. Foi quando caiu a ficha. Era ele! O ocorrido findou num IPM, que era moda na época e do qual participei de forma coercitiva como testemunha (inda bem). Nunca mais os nossos caminhos se cruzaram. Fico pensando, ainda hoje, sobre a inoportunidade por parte de alguns cidadãos defendendo ditaduras.

Voltando ao início acho, por experiência própria, que o acaso dá uma mãozinha a quem persiste; que o mundo sempre conspira para um final feliz naquelas coisas difíceis, improváveis, quase impossíveis de se alcançar. O difícil, muito difícil mesmo, é vir o resultado com a sorte grande. Me sinto de mãos atadas ao constatar que a bandalheira de poucos e a desesperança do restante enraizou no eleitor, na cabeça do povo, e o pior, começa ocupar com força o inconsciente coletivo; e que o individualismo político demagógico tornou-se a solução pra resolver fora da ação política, um problema político. Ao arrepio da dialética e do que se depreende ao ler os livros de história. Enfim, “os meus heróis na vida real são os que desafiam a lei em nome de um ideal”. Ou estaria eu a confundir as bolas? Fui.

José Delfino – Medico, poeta e músico
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