DE QUARTAS DE FINAL – José Delfino



DE QUARTAS DE FINAL –

Escrever um conto parece ser fácil. Quem lê, nem adivinha a dificuldade. Nem o efeito das circunstâncias ao redor dele. Fui pro editor de texto com o argumento na cabeça já bem estruturado, LIGEIRA PAUSA PRA ARRUMAR A IDEIA, e comecei a digitar: “Fazia um calor dos diabos. Mal abri os olhos e a primeira luz do sol da manhã já vazava pela cortina da janela. Levantei da cama e liguei o ventilador. Difícil dizer se ele tinha aproveitado o descanso da noite anterior . De qualquer forma ele rangeu em protesto. Olhei o relógio. Sete horas …”

Foi quando o telefone tocou. Ligação de longa distância. Quem num domingo iria ligar pra mim do outro lado do Atlântico? Atendi. Delfino? Sim. Aqui uma voz do seu passado … BREVE INTERRUPÇÃO, você está aí ? Sim. Aqui, Mervin. Pig? Hogg, seu filho da puta, você não mudou nada esses anos, hein ? PARECEU UM SORRISO DO LADO DE LÁ. Quanto tempo Mervin, como conseguiu o meu número ? A internet tem seus segredos, meu amigo. UMA RISADA DO LADO DE CÁ SEGUIDA DO ÓBVIO, Como vai o Tio Sam? Nunca mais voltei para Ohio, José. Continuei para sempre em Londres, casei, tive filhos, neto, minha felicidade está aqui. Vou morrer aqui. Tô te ligando pra falar de morte, por sinal. ??? PAUSA DE TRÊS SEGUNDOS SEGUIDA DE UM SUSPIRO OU UMA RESPIRAÇÃO PESADA DO OUTRO LADO DA LINHA. Michael se foi numa greve de fome. Cumpriu a promessa aos 90 anos. Com a morte de Sally, tudo pronto, mesa posta, decidiu que não tinha mais sentido viver. Simples, assim. Que Deus o tenha. Não conseguimos fazê-lo mudar de ideia. Aquele judeu cabeçudo. Ligue pros outros. Acorde-os. Te cuida. Adeus. LACÔNICO LIGOU, LACÔNICO DESLIGOU.

Fazer o quê, a maioria dos meus amigos é assim, o oposto de mim. Voltei ao computador mas o conto voou do pau . Feito a letra do Caetano “… não teve nada de mais, só que a mala de couro que eu carregava , embora forrada , fedia, cheirava mal”. Decidi voltar de novo pra a cama e lá fiquei ao léu enrolado ao lençol, apático. Após uns minutos voltei a escrever. E agora o conto, não mais um conto, nem eu tinha mais força e disposição em fazê-lo se travestiu de um monocórdico lamento

Verdade parece ser que a felicidade é o que há de melhor na vida. Talvez o de mais alegre, frágil e fortuito. E o de mais triste, também, pois ela implica tudo que inexoravelmente um dia se perde. E com a perda, a sólida e a inarredável desesperança de cada um, coisas que sempre dão e passam e a gente nunca se esquece. Inúteis as racionalizações. Insuficientes os intertextos. As sábias pontuações de amigos que habitam nossa mente e nunca saberão que são nossos amigos. Um deles falou no início de um poema “A vida vem em ondas como o mar …”. “Nada do que foi será … num indo e vindo infinito” complementou um outro. Um foi mais longe, ainda (esse falava francês). “Não há nada mais trágico que a vida de um homem feliz”. Entender-se-ia este prudente aviso numa civilização que passou séculos a anunciar só pra depois da existência o anúncio da felicidade e com a condição da vida ser sofrida. Apenas não se coaduna, pouco se harmoniza com a minha tosca e vã filosofia. Muito pouco.

Tenho amigos vivos e mortos que penso neles quase todos os dias. Como bem poderia ter dito o mal-amado Raimundo, fora de contexto: “Eles são (e foram) a praia que eu frequento certas manhãs. Meus gestos indispensáveis que se cumpriam a um ar tão absolutamente livre que ele mesmo determina os seus limites, meus gestos simplificados diante das extensões de que uma luz geral aboliu todos os segredos”. Sem falar das pessoas que vão e vêm num rio invisível. “Aquele rio que era como um cão sem plumas. Nada sabia da chuva azul, da fonte cor de rosa, da água do copo de água, da água de cântaro, dos peixes de água, da brisa na água”. Mas ser feliz não é apenas não ser infeliz. Necessário se fazer saber bem onde a felicidade está. QUE DIABO, BEM UNS QUINZE MINUTOS PARA FECHAR O TEXTO DE UM MODO QUE ME FIZESSE BEM, e neste “alheamento do que na vida é porosidade e comunicação … Itabira é (e será) apenas uma fotografia na parede. Mas como dói!”. Que cada um se desencarregue dessa tarefa ao seu modo.

 

José Delfino – Medico, poeta e músico
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