DE COISAS QUE NÃO ME ARREPENDO – José Delfino



DE COISAS QUE NÃO ME ARREPENDO –

Do medo de fazer as coisas, taí uma delas. A gente diz que não liga, mas liga. Tá no nosso subconsciente. Faz parte do inconsciente coletivo. Arraigado está no atavismo genético que rege tudo, até o instinto de sobrevivência em cada um de nós. O que faz o macho reprodutor ativo e a fêmea passiva, em tese, receptáculo. Detalhe besta que faz ambos dependerem, intrinsecamente, um do outro e de nós, os machos, os eternos babacas apaixonados que não vivem sem elas. Este tipo de entendimento começou a florescer e a ser mais discutido bem após Darwin propor a tese segundo a qual a evolução dos animais se embasaria na seleção natural e sexual. Que ninguém derrubou até hoje.

Lamarck foi quem primeiro chamou atenção para o fato, mas “pisou na bola” em plena “viagem”; deu o chute errado e se deu mal ao tentar explicar o porquê das girafas terem o pescoço comprido. Dizia ele que era devido a necessidade que elas tinham de alcançarem as ramagens mais altas das árvores para se alimentarem. Empolgação em demasia, às vezes, dá errado. Vivemos hoje a era da longevidade alargada, como regra. Quando se morre aos 70, a tendência é o comentário: “que pena, morreu tão novo” … Lembro papai aos 75 anos ( quando setenta ainda era muito tempo de vida ) e queriam impor restrições a ele a tudo que você imaginar . Ele levava uma vida espartana. O sonho dele era alcançar as maravilhas do ano 2000. Não houve tempo suficiente. Gostava de cabeça de bode e abrir o apetite pra degustar a iguaria com um só e rápido gole de aguardente. Propiciei isto pra ele, até o final da vida, contra tudo e contra todos, enquanto pude. Até explodir o aneurisma de sua aorta abdominal, que dele herdei um igual e que se escondia no mesmíssimo lugar em meu corpo.

Estocava vinho de missa comprado dos irmãos maristas, pra saborear ao longo dos dias. Comprava em tonel, do estoque deles. Esterilizava garrafas e as guardava numa adega artesanal, pra consumir a longo prazo em pequenos cálices. Arrolhava e as lacrava com cera de vela derretida. Hoje a barra está pesada, os padres forçados a descontinuar o hábito trocando o vinho de missa por suco de uva (nesses tempos bicudos, dizem até, por K-Suco de morango); no ato da consagração (quando pão e vinho são transubstanciados como o corpo e sangue do Cristo morto na cruz), por conta da lei do trânsito. Deve ter acabado neles o fugaz prazer ritual, mas os flavonóides do suco de uva continuam os mesmos. O que é bom pra saúde. Afinal, os médicos não deveriam relevar o uso de bebidas alcoólicas. Essa história que álcool não faz mal é puro papo furado. Uma taça de vinho tomada diariamente não faria mal, possivelmente. Equivaleria a uma dose de 20 ml de qualquer bebida destilada, ou uma garrafa de cerveja das pequenas. O diabo é que cada um reage de modo diferente e o risco das pessoas se tornarem bebedoras contumazes, alcoólatras, é grande. Daí, como consequência baterem nas esposas, amantes e raparigas e matarem pessoas inocentes no trânsito, fatos que o cotidiano confirma .

Comer cabeça de bode, rica em lipídeos, não é hábito exclusivo dos glutões. O colesterol faz parte das substâncias essenciais ao organismo. Sal, a mesma coisa. O organismo é em essência uma unidade salina. Coca-Cola não faz mal com relação ao teor de sódio contido na fórmula. Os refrigerantes em geral diminuem a absorção do cálcio, mas isto é questão para quem tem osteoporose como determinação genética. É ela que conta no final. O progresso da ciência é que determina o curso dos acontecimentos, em princípio . Lembram do caso da ingestão de ovos ? Quem irá me ressarcir de tê-los evitado durante tanto tempo, dando bola para os médicos ? Margarina já era. Gordura de porco, usada com parcimônia , já não é mais o bicho-papão, como antes. Fadado a padecer de todos os males possíveis e imagináveis, já pesou no barato que talvez seria morrer fodendo, em pleno orgasmo?

Eu não gostaria, mas, de repente, a possibilidade ativa e liga o amor mestiço ao humor negro. Portanto, guardando o limite do razoável, beba, fume, coma e trepe à vontade, sem forçar a barra. A disfunção erétil, que a partir dos 65 (às vezes menos, rsrs) tem os que têm e os que mentem, já tem cura temporária e mais, definitiva: enquanto durarem a lucidez e o tesão. Comentam à socapa, inclusive que essas drogas, pelo engurgitamento que acarretaria ao clítoris, aumentariam o prazer das fêmeas; e nos jovens, ocorreria o desaparecimento da fase refratária pós orgasmo. Acompanho os avanços da medicina , pra me manter em dia e principalmente pra manter o sono seguro dos meus clientes. Nas horas vagas leio até bula de remédio. Carpe diem, portanto, velhinhos e velhinhas. Vida só se tem uma, o cartório não dá nada consta em contrário, nem confirma a assertiva; nem pareceria existir cartórios no céu ou no inferno pra darem firma reconhecida acerca da outra existência. Sou médico há 50 anos, mas não sou besta.

 

José Delfino – Medico, poeta e músico
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