DA ESCALADA DE MONTANHAS IMPROVÁVEIS – José Delfino



DA ESCALADA DE MONTANHAS IMPROVÁVEIS – 

Pra nós mortais, em nossos guetos, é assim. Apesar de, pra ser confirmada a regra, também ter quem não concorda: a gente só vive no coração e na mente daqueles que nos querem bem. Por duas gerações, apenas. O resto se evapora no nosso conceito de “tempo”, adaptado ao movimentos do planeta terra em relação ao sol. Lembra do seu trisavô ? No que tange a mim, nem memória oral ou daguerreótipos existem dele. Cristo (Deus e o Diabo num só ), Beethoven ( o surdo, o som, e a fúria ), Buda ( hedonista , sedentário e comilão , pareceria ), Bach ( Deus da música e afeito à cama, as evidências sugerem) e inúmeros outros, no contexto, ficariam entregues a interpretações de cunho sinestésico, sob o domínio das heranças atávicas impregnadas nas nossas sinapses cerebrais.

O resto é expectativa e torcida como quem vê uma partida de futebol, onde serotonina e adrenalina se confundem. Esclareça-se que não se trata de uma ética exemplar, mas da nossa forma egoística de ver as coisas. O normal poderia ser não ficar no topo da onda, local de júbilo dos adeptos de um lado só, mas congratular com os fulgores de um e do outro. Não precisa ser filósofo pra perceber que o que se perde em intensidade se ganha em abrangência. Nem ser psiquiatra pra saber que o custo e a ideia permanente de vitória alcança o delírio e a paranóia. Mas a natureza humana foi projetada assim. Daí, interpretações periféricas, cínicas (algumas poéticas) como essas, que se ouvem por aí jogadas à reflexão: quando Eva se aproximou de Adão, ele notou uma coisa estranha; ela vinha rodando uma bolsinha; dentro dela, uma maçã. Claro está que o que fez a cobra foi um acidente de percurso, provado, necessário e indispensável.

Pois é, com o passar do tal do “tempo”, a gente verifica que os bonés das nossas luas estão sempre instáveis nas nossas cabeças. E que os espelhos sempre nos interpretam invertidos. Daria até pra ampliar o que ora rumino numa crônica. Mas hoje não estou com saco. Sacou? Melhor sair pra caminhar minhas duas léguas e espantar os meus demônios, sempre em linha reta, ouvindo Bartok no Spotify e vendo o verde molhado das árvores no percurso, que por essas bandas só existem a estação da seca e a estação das chuvas. Maneira legal de arejar corpo e mente, diferente das de outras atmosferas para as quais necessário seria fazer-se ao mar. Para lugares com estações definidas onde se poderiam não só curtir cactus, eucaliptos e outros tipos de plantas sedentas. E ver as tardes de fim de verão, com sua luz fina e clara cobrindo os vinhedos. E o alarido das vindimas.

 

 

 

José Delfino – Medico, poeta e músico
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